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Mãe-Galinha

Primeiro molar superior direito

26.05.11

Dói-me a boca. Tenho um dente e um quisto a menos e sete pontos a fechar a gengiva. Tomo medicamentos de quatro em quatro horas e só como sopa fria e passada. Durmo semi-deitada, quase sentada. 

Mas consigo falar. Muito. E isso é o que interessa.

 

Também tenho trabalhado muito e hoje quase me esqueci duma filha na escola por causa de números e cálculos e mais números e tabelas e verificações. Saí  do trabalho a correr e cheguei mesmo a tempo de lhe segurar o quase choro pelo meu atraso. Eu não devia correr, por causa dos pontos. Nem devia ter ido trabalhar. Mas corri. E fui. Porque a vida são estas coisas todas e apesar do esforço, é sempre melhor chegar ao fim do dia com a sensação de missão cumprida.

 

Até sonhei com o D. João V

19.10.10

Ontem tive um chilique.
Apoderou-se de mim um cansaço inimaginável, tive vertigens e tonturas, vontade de vomitar, perdi a força nas pernas e deixei de sentir os dedos das mãos.
Há doze anos que durmo pouco, que me preocupo, que dobro meias e separo cuecas, que não relaxo, que não tenho tempo para mim, que não fico doente, que me esqueço de respirar. Portanto, ontem dei-me ao luxo de ter um chilique, deixei-me levar para casa a meio do dia (o chilique foi no trabalho) e dormi, dormi, dormi, acordei, comi e dormi. Horas, horas e mais horas.

Pelo meio ainda ouvi três diagnósticos brilhantes - é da vesícula, é um AVC, é um tumor no cérebro. Óié! Isso tudo e muito sono.

Ainda não estou fina mas já estou melhor. Como as pontas dos dedos ainda estão dormentes, vou aproveitar para teclar como se não houvesse amanhã.

trinta e oito e meio

10.02.09

O vírus passa de garganta em garganta e aborrece-me os dias e as noites. Eu nunca fico doente mas às vezes apetecia-me. Ficava deitada no sofá, enrolada numa manta, traziam-me chás e paracetamol, davam-me beijinhos e deixavam-me estar sossegadinha, a ver se a dor de cabeça passava. Se eu estivesse doente se calhar nem tinha que fazer o jantar.

Eles ficam todos doentes e eu não. Porque eu sou a mãe e tenho, de certeza, um chip incorporado que emite ultra-sons que afugentam os bichos e me faz aguentar dias e dias (meses. anos.) sem dormir.

Não sei como não baralho tanto antibiótico, anti-inflamatório, gotas do nariz, paracetamol, ibuprofeno e afins. Já não uso termómetro porque consigo saber-lhes a febre só com um beijo na testa e estou quase, quase, a tentar uma especialização em pediatria.  

Choverá para sempre e mais além?

06.02.09

Foi à biblioteca, apanhou uma molha e está de molho com febre. Faz desenhos e perguntas e obriga-me a escrever não sei quantas palavras para depois as copiar.

Para a semana estará oficialmente inscrita na escola primária.

 

 

É um facto - ter mais filhos implica ter mais febres, mais ranhos, mais tosses e mais -ites. Chatices, portanto.

 

Ontem escrevi um e-mail à empresa que faz a recolha dos ecopontos. Já não me indigna estarem sempre cheios, até pode ser bom sinal. Ando é baralhada com a impressão de que, quando é feita a recolha, fica tudo misturado. É capaz de ser uma ilusão de óptica.

fim de janeiro

26.01.08
O facto é que me desmotiva o excesso, e tenho tanto que não me contento com pouco.
Acho que é por isso que não tenho escrito.

É Janeiro, quase no fim, e as miúdas continuam rijas e a escapar às maleitas do inverno. Tirando um episódio de há uma semana com uma laringite na Carmo, mas que se curou mal me disseram que o tempo de espera na urgência seria de mais de seis horas. E um dia de febre na Maria que com caldinhos e ben-u-rons não passou disso.

Na noite da tosse rouca da laringite, assustei-me, pareceu-me que faltava o ar à miúda, e fugi para a urgência que aqui não fechou. Não fechou esta mas fecharam umas quantas aqui à roda e eu, que até então não ligara muito à coisa, senti na pele o peso de tanta gente. Mal saí da triagem e manchestereada em verde, fiz-me ao caminho e regressei a casa. Sábia a enfermeira - o melhor é ir... Se ela piorar, volte cá daqui a umas horas que até às sete da manhã não perde a vez de certeza.
Descansada com o facto de ar lhe fluir, foi só chegar a casa. No dia seguinte estava rosada e sadia. Até fomos ao teatro.

Daqui a menos de dois meses é primavera e já tremo a pensar nos meus desgostos e na asma da Inês.
Nem pareço eu a falar mas
oxalá chegue depressa o Verão.

seis vírgula zero dois vezes dez elevado a vinte e três

23.07.07
Tenho as costas feitas num bolo. Talvez as barre com chocolate quente, derretido, e talvez o calor me ajude a suportar a dor. Ou gelo, que a mim me parece um músculo inflamado.
O calor e o frio. É de extremos, a fuga da dor.

Juro que acordei às cinco da manhã e não dormi mais, tal era a dor e a falta de posição. Tomei um paracetamol efervercente que me aliviou mas nada me curará, que isto é um mal da idade. Um mal que se eleva à potencia dos filhos.

Noutro dia lembrei-me do número de Avogadro. Nesse mesmo dia descobri que a tabela periódica já não é o que era.

Passo dos trinta e cinco.
Isto não é um queixume, é um facto.

Dotes

10.05.07
Tenho duas bolhas nos pés e doem-me as pernas. A culpa é do PPD.
Cresci a ouvir esta expressão, a culpa é do PPD, a culpa é do PPD e depois o PPD até mudou de nome e a culpa também por isso, o PPD seria outro.
Hoje voto a este PPD a culpa das minhas mazelas, que me tenho fartado de andar a pé para poupar gasolina. Chego à cidade, estaciono à porta do infantário e passo o dia a calcorrear passeios e a descobrir detalhes nos quais nunca antes tinha reparado. O pior são as bolhas nos pés e o cheiro a chulé e a transpiração quando me deito na maca para que me massagem as maleitas. Hoje armei-me das dodots que já quase não têm uso em casa a não ser para tirar algumas nódoas e mais logo, antes de me deitar na tal maca, hei-de dodotar-me.
Também dispensei metade da empregada e passarei serões a passar
-me.
A roupa.

Do PS esperava mais S. O PPD - Plano de Poupanças Doméstico, espero que tenha os dias contados.
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© Rita Quintela
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