Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Mãe-Galinha

Desintoxicação pascal

27.03.07
Uma das consequências mais dramáticas de deixar de fumar resume-se a isto - muito sono. Tenho caído para o lado noite após noite. Caio, no sentido da palavra, e acordo quando a minha cabeça bate no braço de madeira do cadeirão onde me sento para tricotar. Aborrece-me esta preguiça forçada que resulta numa produção escassa. Tinha tantas ideias para a Páscoa...
Felizmente os dias cresceram e a hora mudou, o que me tem permitido bricolar com tintas até mais tarde, na rua.
Apesar de tudo, há coisas novas na loja.

Vigésimo segundo dia

22.02.07
Quando as calças não me passaram nas coxas e a minha filha do meio me disse:
- Tás um bocadito gorda, mãe...
eu nem hesitei.
Tirei umas meias da gaveta, umas calças de ginástica e uma t-shirt do armário, escolhi os meus melhores ténis e enfiei tudo num saco. Isto eram oito horas da manhã de ontem.
Quando saí do trabalheco mudei de roupa no carro (apesar dos avisos da existência de câmaras no parque de estacionamento) e pus-me a caminho. Não sei quantos quilómetros andei mas foram muitos, de certeza. E eu que já nem me lembrava das vantagens das endorfinas! Há mais de dezoito horas que não grito mas doem-me tanto as pernas que estou capaz de tomar um ben-u-ron.
Eu sabia que não era boa ideia deixar de fumar...

Enxaqueca

14.02.07
Ontem fui à segunda consulta antitabágica e surpreendi o médico com o facto de ter consigo cumprir o trabalho de casa. Engordei um quilo, reduzi um cigarro. Onde chegarei?!
Tenho doze dias para adiar o café da manhã, etapa que hoje matei na perfeição. Depois se verá.
Obrigou-me à promessa de três vezes trinta e cinco minutos de exercício em cada semana e eu disse que sim, que pior do que deixar de fumar deve ser fazer dieta. Menos pão, menina, menos pão! O que eu gosto de pão com manteiga, pão com mel, pão com fiambre, pão na sopa e molho no pão.
Passei parte da noite a tentar encaixar os três bocados de exercício no tempo que não tenho e cheguei a pensar em levantar-me mais cedo para andar de bicicleta na aldeia, enquanto os galos cantam e as vacas vão à ordenha. Devia estar maluca, com esta ideia. Se acordasse meia hora mais cedo quase não dormia e eu acho que as minhas dores de cabeça são falta de sono e não de nicotina.

Oito

05.02.07
Quando me disse, olhos nos olhos
- Então eliminamos este, o número sete,
eu passei-me e comecei a transpirar e a praguejar.
- Este? - e apontei o papel - O do café a seguir ao jantar? Está a brincar comigo?
- Então… temos que começar por algum lado e no seu caso, o melhor é começar pelo mais difícil.

Não sei onde estava com a cabeça quando me inscrevi numa consulta antitabágica. Quer dizer, sei. Fi-lo mais por ele do que por mim. E por elas, claro. Quero viver muitos anos e viver muito saudável. E quero o meu homem comigo e sem catarro.
Fui ao centro de saúde e inscrevi-nos.

No dia anterior à consulta, quase me arrependi e, de cigarro na mão e fumo no ar, disse:
- Se se põe lá com merdas de terapias de grupo e correntes positivas e tal, saio logo porta fora de cigarro em punho.
Notava-se logo ali a minha motivação.

Fomos.
- Sim, a consulta é individual - disse a menina da recepção.
- E não podemos entrar juntos? - eu, com medo que me faltassem as forças e a querer segurar-me à força do meu homem.
- Acho que sim
Entrámos juntos e o médico decidiu que eu falava primeiro. Pesaram-me, mediram-me alturas e tensões arteriais, esventraram-me os segredos quase todos e ainda a consulta ia no princípio e já eu estava a dar o tempo por bem entregue. Eu e o meu homem, a trocar confidências com dois médicos atentos e atenciosos.

Lá chegou a altura de falar sobre o que ali me trouxe e eu não menti, tinha prometido:
- Nem sei bem, que eu gosto tanto de fumar
- E quantos cigarros fuma por dia?
- Nove. Um às nove e um quarto da manhã,, outro às onze, outro a seguir ao almoço – e por aí fora
O médico de olhos arregalados. Olhava para mim, olhava para os meus segredos gatafunhados por ele em letras e desenhos, olhava para o João, olhava a outra médica.
- Faz-lhe o teste da motivação – disse
- Zero, doutor. Esta senhora tem motivação nula.
E eu:
- Isso eu sei, não é preciso nenhum teste.
O médico esfrega a barba e olha o meu homem nos olhos:
- A Rita é maníaca… maníaca no sentido médico do termo. Sabe disso, não sabe?
O meu homem riu-se e olhou para mim. Eu sorri. Não me espantei com a conclusão médica.
O médico acrescentou uma série de características positivas das pessoas que assim são - a capacidade de raciocínio, a inteligência, a organização. Passou os defeitos. Já chegava o depreciativo da palavra “maníaca”.
Falou-me depois da luta a travar contra as rotinas mas eu não ouvi bem essa parte porque àquela hora exacta eu devia estar a beber um café e a saborear um pastel de nata para a seguir fumar o sexto cigarro do dia.

- Ora bem – continuou o médico e agora eu ouvi - a parte mais difícil já está feita e foi feita por si. De vinte para nove é obra.
Agora a dificuldade é mais minha, que tenho que lhe entrar nas rotinas e quebrá-las.
- Mas eu não quero…
- Fazemos um esforço.

E começa-me a falar de chás e rituais do chá e sabores do chá e coisas complicadíssimas para fazer chá, como se eu tivesse o tempo todo do mundo para estar às meias horas a fazer chá. Ainda por cima queria que eu fizesse isso em vez de tomar um café e fumar um cigarro a seguir ao jantar, enquanto o meu homem, soube depois, podia ali ficar na mesa da mesma cozinha onde seria suposto eu preparar o tal chá, a fumar e a beber café.
Mas prometi, mais ao mim do que ao médico, que iria conseguir.

Ando um bocado doida com isto. Acordo de manhã a pensar que a seguir ao jantar não fumo aquele cigarro. Mas estou a ser capaz. Não faço cházinhos nem escaldo chaveninhas nem nada. Acabo de jantar e mimo-me. Tenho tomado uns banhos do além e usado todos os cremes que há na casa de banho. Estico quinze minutos em quarenta e depois ainda me sobra uma data de tempo até nova ordem de soltura. Dão-me dez dias para me habituar a isto. A injustiça é que ao meu homem deram um mês e meio para decidir quantos cigarros fuma por dia.

Volto lá daqui a oito dias e consome-me a curiosidade do que se segue. Pedir-me-ão que faça abdominais a meio da manhã?
O nome e os conteúdos deste blogue estão protegidos por direitos de autor.
© Rita Quintela
IBSN 7-435-23517-5