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Mãe-Galinha

Da série "Aveiro continua a ser uma cidade esquisita"

Rita, 02.11.07
Um mês depois, decidi telefonar; e em três tempos tinha o Regulamento comigo.
- Sabe, é que já ando há seis meses atrás disso e não há meio...
(pronto, vesti-me de delicadezas a ver se me saía a sorte.)
- Pois, compreendo. Mas temos muito trabalho e damos prioridade ao contencioso.
- Mas é que nem sequer me responderam ao mail!
- Pois, compreendo. Mas eu reencaminho já para a secção de não sei-quê e depois é só aguardar mais uns dias e pode vir levantar as cópias e pagar.
- ... suspiro... Mas eu trabalho e não posso estar sempre a sair mais cedo para estar aí no vosso horário. E ainda por cima tenho três miúdas e tenho que as ir buscar à escola e tal e tal.
(do outro lado da linha a jurista já tinha mencionado que estava com horário reduzido por amamentação e eu não perdi a oportunidade de sacar do argumento "solidariedade de mães")
- Olhe, eu se calhar tiro-lhe mas é aqui uma cópia do meu e deixo na portaria. Assim a senhora vem buscar quando puder.

Percebi tarde de mais que esta amabilidade era não grata na Câmara. Percebi-o dias depois, quando ao telefone tentei tirar mais umas dúvidas.

É que, naquele dia em que me veio finalmente parar às mãos o bendito regulamento, achei-o tão sumido que o li ali mesmo, à porta da Câmara, e duma assentada. Duas páginas A4 para seis meses de espera.
A linhas tantas, blá blá blá taxa prevista na respectiva tabela de taxas municipais.
Ainda não eram quatro da tarde e entrei logo na porta ao lado, a que dizia "Atendimento". Tirei a senha, esperei pela minha vez, pedi a tal tabela e
- Ah... Não sei... Vou ligar lá para cima.
Uns minutos depois
- Cá está! Está aqui on-line!
- No vosso site? Então eu vejo em casa.
Só que não consegui ver. Quer dizer, consegui ver a tabela de taxas mas não encontrei as taxas de estacionamento. Campas e jazigos, engraxadores, gruas, tudo tem preço. E eu sem dar com os preços do estacionamento.

Reli vezes sem conta o papel pelo qual ansiei tantos meses. E quase no fim, em jeito de epílogo, "incorrendo os transgressores na multa prevista no Código da estrada". O meu caso, portanto.
Tinha assim mais dois coelhos enjaulados na cartola - as taxas de estacionamento que eu não encontrava e as multas previstas no código da estarda.
(Bem me parecia que aquela doce mãe me tinha dado um presente envenenado.)
Googlei o Código da Estrada que li em ziguezague e lá dei com o artº 71, bem escondido entre circulação de animais e avarias de luzes.
E quem infringir o disposto no nº anterior é sancionado com coima de 20 a 150 euros.
O nº anterior?
Blá bblá alínea d) Por tempo superior ao estabelecido ou sem o pagamento da taxa fixada nos termos do n.º 2 do artigo anterior.
O artigo anterior?
Nº 2 - Os parques e zonas de estacionamento podem ser afectos a veículos de
determinada categoria e ter utilização limitada no tempo, bem como sujeita ao pagamento de uma taxa, nos termos fixados em regulamento.

O regulamento?
É o que eu tenho. E que remete para o Código da estrada que remete para o regulamento que remete para o Código da estrada
Arghhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh.....................

Vou armar-me em simplista e aceitar que o regulamento remete para o Código da estrada que fixa a coima num valor entre 30 e 50 euros. (O que não é verdade porque isto é um verdadeiro carrossel sem fim, um labirinto mágico, uma espiral vertiginosa)

E vou descansar um bocadinho, que a minha cabeça não dá para tanto.
Mas há mais. E muito melhor.

(Cozinho nas entranhas como vou foder a vida chatear a cabeça ao gajo mais mal-educado de que tenho memória num serviço público e que hoje me atendeu na Câmara).
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© Rita Quintela
IBSN 7-435-23517-5

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