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Mãe-Galinha

a salto

21.06.07
Anteontem passei a tarde na esquadra. Parece-me que foi a primeira vez que estive tanto tempo numa esquadra.

Minto. Uma vez um amigo meu, teria eu uns dezoito anos, foi detido por andar a assustar os putos da escola com pó de giz, dizendo-lhes que era droga:

É droga, meu, tás a ver, queres? Queres?

Alguém chamou a polícia e ele foi detido. Estive lá umas horas a fazer os bófias acreditarem que o pó era de giz. Depois veio o detido e a seguir bebemos umas valentes cervejas. Parece-me que nesse dia também comemos caracóis.

Anteontem eu e o meu Jota fomos apresentar uma queixa contra desconhecidos. Fartámo-nos de rir e é este riso que nos sai com toda a força quando temos que tratar seja do que for neste jardim, que nos faz ainda continuar a gostar de cá estar. É que isto é mesmo esquisito.

Seja segunda-feira, dia 18 de Junho:

Há mais de um mês que a minha rua não tem luz. Há mais de um mês liguei para a Junta de Freguesia e há mais de um mês disseram-me que devia ligar para a edp. Até me deram o número! Errado, mas deram. Há mais de um mês que liguei. Foi a primeira vez. Liguei a segunda há cerca de quinze dias. A terceira há uma semana.

- Não, não é nenhuma lâmpara fundida. É mesmo a rua sem luz.
- A rua toda?
- Sei lá. Está tão escuro que até tenho medo de sair de casa para ver se é a rua toda.

Três vezes.

Terça-feira, vinte de Junho:
Devia ser meia-noite e tocam à campainha. O silêncio, a escuridão da rua, a campainha. Curiosa, venho também à porta já depois dele, o meu Jota, a ter aberto. São duas vizinhas:

- Aquele carro não é seu? É que está no meio da rua e com esta escuridão ainda alguém lhe bate...
- Pois é! É o nosso! Será que o deixei destravado? - pergunta ele
- Olha! Tem o vidro partido! Ah! Tentaram assaltar isto! E deram cabo da direcção!

Não levaram nada mas estaragaram tudo. Eu fui para a cama e veio a polícia.

É o dia seguinte e estamos na esquadra. Há uma televisão sintonizada na SIC e um agente sentado a uma secretária. Um telefone, um computador e um daqueles walkie- talkies da polícia, sempre a debitar alfas a chamar ómegas e deltas a gamas.

- Então digam
- É para apresentar uma queixa
- O que é que se passou?
- blá blá blá
- E quer apresentar queixa!?
- Sim...
- E ir para tribunal e tudo?
- Pois...

Os olhos esbugalhados; a trabalheira que lhe estávamos a dar.

Não sei quantos impressos em quadriplicado e ao fim de uma hora e meia:

- Leia lá e veja se está tudo nos conformes
- Aqui diz que os suspeitos não actuaram em grupo - digo eu , acrescentando - mas a gente sabe lá se era só um ou mais e se estavam em grupo ou não!
- Ah... mas o programa só aceita assim - ou sim ou não. Portanto, pus "não".
- Mas não sabemos....
- Pois. Mas isto ainda está em testes e não posso mudar.

Este mesmo agente que nos recebeu a queixa foi o mesmo agente que, durante aqueles noventa minutos, atendeu todas as chamadas telefónicas. Umas, reencaminhou. Outras, registou e comunicou pelo walkie-talkie. Naqueles noventa minutos ficámos a saber tudo o que aconteceu nesta cidade e que implicou que fosse marcado o número de telefone da polícia. Entretanto, na sala que se avistava atrás do nosso agente, vários outros comiam cerejas. Deviam estar na hora da folga. Eram cinco e meia da tarde, mais coisa menos coisa.

Antes de sair dali, perguntei ao agente se me podia queixar da falta de luz na rua e responsabilizar a edp pelo assalto. O pobre rapaz gaguejou e ligou ao chefe que mandou dizer que não, que isso era do âmbito dos "cíveis" e que me fosse queixar a outra banda. Horas antes tinha-me queixado à entidade reguladora do sector energético.

Apeteceu-me perguntar se me podia ali queixar da própria psp mas achei melhor não. Metemo-nos no carro a rir e com vontade de cerejas e eu fui direitinha à edp. Fui tão bem atendida, mas tão bem atendida que me apeteceu dar um beijo na boca do funcionário. A sério.

O homem registou a minha queixa, amparou-me a desilusão com o os sistemas e disse-me

- Vai ver que agora é que isto se resolve. Isto quando passa a reclamação formal, é sempre a andar.

(soubesse eu disto, meu rico carrinho...)

Não tinham passado vinte e quatro horas e já a luz se acendia de novo na minha rua.

Não é a coisa mai´ linda, este país?

Um dia destes vamos viver para a Holanda.
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© Rita Quintela
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