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Mãe-Galinha

A BONECA E O BEIJO

Rita, 22.12.04
A dois dias do Natal, ainda há presentes para embrulhar e lembranças para acabar de fazer. Há um cansaço bom, um cansaço que passa com o cheiro das rabanadas da minha mãe. Horas que deviam ser de sono são ocupadas com fitas, laços e papéis coloridos.



Este ano, mais do que nos outros, o orçamento não permitiu grandes gastos, que as despesas com a casa nova têm sido mais do que muitas.

Mas a mim, apesar das dificuldades, ninguém me tira o prazer de dar, maior que o de receber. Todos os que moram no nosso coração têm direito a ser lembrados.



Cá em casa vivemos activamente o espírito de Natal, com as crianças a recolherem, no início de Dezembro, alguns dos seus brinquedos para instituições de solidariedade, com presentes feitos em casa, com compras que só valem pelo sentimento.



É também no Natal que mais intensamente se vivem inúmeras campanhas de solidariedade. E este ano, pela primeira vez, dei por mim a pensar seriamente neste assunto. É que a "dádiva" faz parte do meu ser. Só não dou o que não tenho. Não suporto o sofrimento alheio. A fome, o frio, a doença, a falta de amor.



Há meninos que vivem em casas sem pai nem mãe, há mulheres que vivem escondidas em instituições porque os maridos as agridem, há famílias pobres, muito pobres, a quem falta até o pão na mesa. E eu tenho o carro cheio de roupas e brinquedos que recolhi no sítio onde trabalho e que irão ser distribuidos por algumas dessas pessoas. Não posso comprar para as minhas filhas algumas das coisas que transporto. Mas não tenho pena nem tentações. Há quem precise muito mais. Cumpro a minha parte ao associar-me a estas iniciativas mas faço-o sem grande emoção. É que estas dádivas materiais e sem rosto, por belíssima que seja a intenção (que é com certeza a de ver felizes os outros) sabem pouco a Natal. É preciso mais calor.



Sei que algumas das instituições às quais se destinam estas ofertas têm excesso(!). Há roupa e brinquedos guardados por serem demais(?!). Não serão bem distribuídos? Por outro lado, há concerteza instituições onde tudo falta.



É Natal e dói-me a alma por saber que o mais falta por aí é amor. O amor não se dá assim às sacadas, só uma vez por ano. O amor dá-se às mãos cheias e aquece corações. Quantas destas crianças, a quem se destinam estas ofertas, não prefeririam uma família? Quantas destas mulheres, vítiams de homens idiotas, não prefeririam palavras de ajuda e de esperança para recomeçar a vida? Quantas bonecas não seriam de bom grado trocadas por beijos?



Dá um peixe a um homem faminto e estás a alimentá-lo por um dia.

Ensina-o a pescar, e estás a alimentá-lo para o resto da vida


Provérbio Chinês
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© Rita Quintela
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