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Mãe-Galinha

De queixo caído

28.03.07
Mesmo com aquele sangue todo e com a aflição dela, só me apetecia bater-lhe. Parece-me que cheguei a levantar a mão e talvez lhe tenha passado uma areagem pelas orelhas. Mais tarde arrependi-me, claro. Ninguém rasga o queixo dum lado ao outro por vontade própria (digo eu...).

Enquanto a cosiam e ela griatava e esperneava, eu tapei os ouvidos e cantarolei para não a ouvir. Nunca conseguirei suportar nelas o choro de dor. Para abafar mais o som, pensei por cima da música: "Que coisa esquisita. Tão calma, a miúda, estatisticamente a que tem menos probabilidades de ter acidentes destes e já é a terceira vez que aqui vimos parar com sangue por todo o lado".
A avó dir-me-á mais tarde e ao saber da notícia, que a criança tem as pernas bambas e que a culpa deve ser do ballet. "Pois, pois" - respondo eu, a fumegar em cada palavra. Mas que raio tem o ballet que é pau para toda a maleita?

Dizem os livros dos sábios que são os filhos mais novos os mais propensos a acidentes e a Carmo tem corrido riscos e riscado muitas paredes. Acho que só tranquei os armários dos detergentes durante um mês, e isso foi no tempo da Maria, e um mês foi o tempo que demorei a apanhar uma fúria por causa do tempo que perdia só para conseguir abrir o armário. As tomadas deixaram de estar protegidas quando verifiquei que todas elas tinham dedos tão gordinhos que jamais caberiam naqueles buracos. Ah! pus grades nas escadas, é certo. Mas tirei-as quando vi uma das miúdas equilibrar-se em cima duma delas. Aos três anos, a Carmo come de faca e garfo e já me disseram que isso é perigosíssimo porque "a menina pode bazar um olho a alguém"(assim mesmo, com um "bê", que a gente vive aqui para cima).

Antes que me inundem na procura das outras desgraças da criança, conto já que aos três anos entalou de tal forma um dedo numa porta que fez um golpe enorme e esmigalhou a unha (ainda hoje tem vestígios desse dia) e aos quatro corria por uma rampa abaixo e aterrou com a boca numa protecção das que impedem a saída das crianças junto às escolas (irónico, não?). Daí resultou um buraco por baixo do lábio inferior e foi remédio santo para deixar a chucha. Levou seis pontos).

Ora no Sábado passado deviam ser umas dez e meia da manhã quando eu me levantei. Pus a mesa e chamei para o pequeno-almoço. A Maria não veio. O pai chamou-a. A Maria não veio. Chamou outra vez e ela tornou a nem sequer responder. Eu fui à sala, desliguei a televisão e disse:
"Vai já imediatamente lá acima calçar umas pantufas e vestir um casaco".
Ela transfigurou-se, abriu muito os olhos, cerrou os punhos, atirou os braços para baixo com força, começou a subir as escadas e a bater com os pés e eu disse:
"vai devagar que ainda cais"
e ela caiu, que eu bem ouvi o estrondo seco.
Nem liguei e fui para a cozinha, que o cheiro a café estava a fazer-me crescer água na boca. Mas ouvi-a chorar e ainda resmunguei:
- Cala-te Maria, e anda para baixo
Num momento, o instinto falou mais alto e galguei eu as escadas. Dei com ela a amparar o sangue com as duas mãos. Vi logo o osso, a falta de pele, e gritei por ajuda.
Demorei três minutos a chegar ao hospital e ela levou uma série de pontos. Anteontem vi a a cicatriz na mudança do penso e sorri com a perfeição prometida pelo cirurgião: "com uns olhos destes, nem que eu esteja aqui a manhã toda mas isto vai ficar um mimo"
À tarde fomos para o Porto, que a Matilde fazia anos. A Filipa registou-lhe a pose e o queixo.

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© Rita Quintela
IBSN 7-435-23517-5

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