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Mãe-Galinha

Greve geral?

24.11.10

(imagem googlada)

 

Vinte e um anos depois, fiz greve, e agora não são as minhas razões que interessam. Interessa que este dia me vai sai caro no próximo vencimento, que este dia foi cansativo porque os meus filhos não tiveram aulas e que amanhã me vai sair do pêlo o que não produzi hoje. Mas foi um dia bom. Dormi até mais tarde e acordei com a consciência tranquila, do dever cumprido, de saber que a minha ausência seria notada contada, da segurança do regresso amanhã sem represálias, do que perco no vencimento mas que ganho com um dia com os miúdos e por aí fora.

Falei com muita gente, hoje. Aproveitei o dia numa série de coisas para as quais que não tenho disponibilidade nos dias normais e fui a uma consulta, fui aos ctt, fui com as Marias ao Conservatório, levei-as ao ballet. E a vida lá fora pareceu-me tão anormalmente normal. Perguntei; queria saber porque é que não protestavam, e voltei para casa com um nó de desânimo na garganta - as pessoas não protestam porque pura e simplesmente estão resignadas . E quando um país se resigna, não há orçamento, nem pib, nem fmi, nem Senhora de Fátima, nem nada, nada, a não ser talvez esse mistério (para mim) chamado futebol, que inflame alento a um povo.

Eu até gosto de fado e sou uma quase-melancólica. Gosto das mulheres que se enrolam em xailes pretos e que esperam e desesperam pelos maridos no mar. Planeio saudades e distâncias, dou por mima ouvir cantar os desamores. Mas isso não é forma, é feitio, e a resignação deste povo é uma forma. Que se está a tornar inflexível.

A E. disse-me que não fez greve porque depois não haviam de lhe renovar o contrato. A M. que não podia passar sem o dinheiro dum dia de salário, a Dona I que preferia trabalhar hoje a ser chutada para um canto qualquer a arquivar papéis. O meu marido porque não posso, sou recibo-verde, a empregada da minha vizinha porque não tem contrato e nem sequer seguro, dona Rita, nem sequer seguro.

Estas pessoas são todas da minha idade ou mais novas do que eu e estão resignadas desta maneira, resignadas e cheias de medo. Eu não quero que os meus filhos sejam pessoas assim, nem quero que cresçam com medo do que a vida lhes vai trazer e se hoje o dia me trouxe outra coisa boa, foi o tempo para lhes explicar, mesmo aos mais pequenos, porque é que não fui trabalhar (se bem que uma delas achasse que era Sábado a meio da semana, isso pode ser, não pode, mãe?)

Ao fim do dia, ouvi da boca da dona G, mais de quarenta anos de trabalho e uma sabedoria infinita – a menina Rita fez greve? Ó menina, que disparate! Então não sabe que era isso que eles queriam, meter dinheiro ao bolso com o que vão tirar nos ordenados? - Ó dona G não me diga uma coisa dessas! Digo, digo, menina, que já cá ando há muitos anos e isto não é com greves que lá vai.

Se calhar não é, não. Pelo menos com greves destas, em que mais de metade dos trabalhadores picou o ponto, quantos deles a contra-gosto.

, eu ganhei o dia.

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© Rita Quintela
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