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Mãe-Galinha

Doze

Rita, 16.10.10

Por muito que me saiam as palavras em catadupa, não consigo (des)crever-te. Eu queria ser como tu, toda cheia de sonhos, esperança, alegria e vontade de mudar o mundo. Eu queria ter a tua força e determinação. Gostava de ser paciente como tu, e compreensiva, e aceitar a vida como ela é, sabendo que não tens mais do que o livro que te oferecemos porque isto é o que te podemos dar, em vez do telefone melhor do que o que tens, ou as sapatilhas all star.

Também queria saber tocar piano como tu tocas, mesmo que tu própria saibas e digas que não és um novo Mozart. Eu acho que ninguém toca tão bem como tu porque tu tocas o que sabes e esforças-te tanto e nunca desistes, mesmo que eu te diga, desiste, Maria. (uma mãe pode dizer aos filhos que desistam, sabes?). Ainda hoje te ouvi tocar e me vieram as lágrimas aos olhos entre as notas desafinadas. Já não choro quando te vejo dançar porque sai de ti uma luz tão grande quando danças que preciso de semicerrar os olhos para te conseguir ver. E concentro-me tanto em ti, na tua respiração, nos teus gestos, que me canso, quase me esqueço de respirar porque partilho o teu esforço.

Sei bem que é de mim que tem vem a mania das arrumações, a organização minuciosa, os cadernos irrepreensíveis e o gosto infinito pela explicação das coisas. E rebento de orgulho. Quando te disserem que falas alto porque eu falo alto, ignora-os. Fala alto enquanto podes porque vai chegar um dia (oxalá tarde) em que talvez tenhas que te calar e engolir as palavras. É isso que às vezes me acontece, naquelas alturas em que nem perguntas o que foi, mãe, porque sabes bem o que é.

Não quero que sejamos as melhores amigas, mas deixa-me continuar a dar-te a mão e a entrar no teu mundo. Eu prometo que bato à porta do teu quarto antes de entrar, não é preciso afixares mais folhas de letras gordas a proibir extremamente a entrada excepto em casos de urgência absoluta.

 

A casa tresanda a pipocas, a sala está cheia de ti e das tuas amigas. Ouço-vos rir muito, sinto os sofás e as cadeiras a arrastar, estou quase furiosa porque os teus irmãos estão a dormir e a arrumação vai sobrar para mim. Suponho uma noite longa de muitos shius, calem-se meninas, durmam já ou vou ligar às vossas mães. Mas respiro fundo e reflicto que se calhar tenho é inveja.

 

Amanhã, quando acordares, cansada e olheirenta, vai ter doze anos. Doze anos de nós.

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© Rita Quintela
IBSN 7-435-23517-5

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