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Mãe-Galinha

Colecção "uma aventura"

Rita, 10.09.10

A poucos dias do inicio das aulas, já com turmas, horários e o quarto arrumado, ainda não cheira a livros novos aqui em casa.

Hão-de chegar em catadupa, como eu não gosto, terão que ser encapados em cima da hora, sem a calma que os livros novos merecem, e elas não vão gostar tanto deles como deviam porque não chegaram a tempo de, no primeiro dia, lhes encherem as mochilas.

Não os vão ter empilhados em cima da mesa no primeiro dia de aulas. Com sorte e tempo meu, terão as primeiras páginas fotocopiadas se entretanto algum colega não se importar de emprestar os seus durante umas horas. Tirarei as fotocópias (ilegais) num serviço do estado, à conta de dinheiro público e do meu tempo de trabalho. Sem remorsos e com, até, uma pontinha de sentimento de vingança.

Vou arranjar uma pasta A4 e forrá-la com um tecido bonito, fazer separadores pintados com lápis de cera, que cheiram a escola, e colocar-lhes as folhas a preto e branco roubadas dos livros, de maneira a que não se sintam menos alunas por não os ter.

Mesmo assim temos sorte – há muitos livros que passam dumas para as outras mas e a Maria? Para um ciclo novo, sem irmãs mais velhas, sem sequer livros usados. Tudo novo, até uma mochila, e nada para a encher.

 

Porque somos muito e ganhamos pouco, temos direito ao subsídio de acção social escolar. Papéis entregues a horas, IRS direitinho e o primeiro drama – no agrupamento a que pertencem, o procedimento é que os livros sejam encomendados na livraria X, a quem a escola fornece a lista dos alunos e o valor dos subsídios. Os pais pagam apenas o valor remanescente. Acontece que este ano a livraria X não quis colaborar com a escola dado o tempo de espera em relação aos valores dos subsídios. Já corria Agosto quando, depois de muita pressão minha, a escola conseguiu um acordo com outra livraria. Encomendei os livros, paguei a caução e estive três semanas fora. No dia 31 fui à livraria, cheirei os livros, vi-os arrumadinhos em caixas com o nome das miúdas mas não os levei para casa porque a escola não tinha enviado a tal lista de alunos.

A legislação é clara e de fácil leitura – são atribuídos subsídios aos alunos de agregados familiares com escalão A ou B de abono de família. Há um despacho de 2009 que regula as condições de aplicação de aplicação das medidas de acção social escolar e actualiza os valores a vigorar a partir do ano escolar 2009-2010. Ora, se nada for dito, e se nada estiver escrito no despacho relativamente a alterações posteriores, manter-se-ão em vigor os valores até nova publicação.

Esperei. Esperei. Desesperei. Sendo que o ano lectivo deve iniciar-se entre 8 e 13 de Setembro do corrente, no dia 8 rebentei. Porque a escola não envia as listas para a livraria porque “de certeza que vai sair qualquer coisa com novos valores”. Porque DREC não sabe de nada e manda-me aguardar. Porque no Ministério da Educação (serviço de apoio técnico) “só um bocadinho, vou ver se há alguma informação. (…) Deixe-me o seu contacto que já lhe ligo” (…) “De facto não sabemos de nada mas já foi transmitido superiormente.”

Então voltei à escola, agora ao Conselho Executivo e não ao gabinete de acção social e despejei tudo. Isto foi na quarta-feira.

Nesse mesmo dia, nas reuniões de apresentação, conheci professores, pais novos, alguns miúdos. Coloquei a questão. Na turma do 6º ano há pelo menos dez alunos com subsídio mas nenhum dos pais sabia desta vergonha. Têm-se limitado a aceitar a espera que lhes é imposta na livraria. Se a mim me custa pagar, mesmo com a pouca ajuda do estado, calculo o esforço dalgumas famílias.

Soube há pouco, por mais um telefonema do Ministério para o meu telefone pessoal que será, de facto, publicada uma actualização de valores. Quando? – pergunto. Em breve, mandou dizer a senhora ministra.

Uma aventura, isto de ter filhos no ensino público, obrigatório e , sobretudo, gratuito. Uma aventura, senhora ministra, é o que lhe digo.

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© Rita Quintela
IBSN 7-435-23517-5

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