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Mãe-Galinha

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24.10.06
Hoje tenho saudades tuas, meu amor. Não tenho sempre. Há dias em que apenas te sinto a ausência. Noutros, como hoje, apetecem-me os teus abraços e tu não estás. Apetece-me até o teu silêncio que é o teu silêncio que me absorve o pranto de lamúrias que quase sempre me consome. Isso e estas fúrias desmedidas dos males do mundo. O teu silêncio que eu acuso de me aborrecer, abafa-me os pecados.
As tuas filhas perguntam quando vens e eu respondo-lhes num sorriso mentido que só falta um dia ou dois. Embirram e sinto-as tensas. Eu e elas, elas e eu, dias, noites, horas, madrugadas. Divido-me. Divido-as. Hoje estou num daqueles dias em que não chego a todo o lado. Em que o leite ficou fora do frigorífico e a toalha por sacudir, cheia de migalhas. Onde estás, meu amor, que preciso tanto de ti aqui.

Hoje estou num daquels dias em que me pergunto que vida é esta, que vida é a nossa, eu tão cansada da fúria dos dias e a ir buscar forças à saudade dos teus silêncios ausentes. Preciso de força para olhar em frente com um sorriso e continuar. Continuar. Continuar.

Vou para onde? Vamos para onde? E elas, para onde vão?
São felizes, elas? Riem tanto! Ainda ontem, no meio das gargalhadas, fingi continuar a rir e fingi que as lágrimas eram de riso e não eram. Queria que fosses tu a rir assim com elas. Dou-te isso. Não quero ser sempre eu a rir-me. Eu estou cheia dos risos delas e tu não. Será por isso que vives tanto no silêncio?
Onte tentava ensinar a Inês a não sibilar os " s" e a palavra era ganso.
- Fecha os dentes, Inês. Não digas "ganso" com a língua de fora!
E ela lia no livro
- "Antigamente escrevia-se com penas de gancho" - e ria, ria, ria. Corada de riso.
E eu ria e c(h)orava.

Hoje acordei e demorei-me no banho a ver se a água me levava estas tristezas que às vezes me consomem. Depois choveu e deixei-me estar assim, olhos postos nas núvens e as gotas de chuva a entrarem-me pelos olhos dentro.

Hoje faltam-me as forças de mim. Quero que o teu silêncio me venha resgatar.
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© Rita Quintela
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