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Mãe-Galinha

Trezentos e sessenta e cinco

22.07.09

Esta noite foi como se soubesse que começava o dia dele. Das quatro às seis da manhã dormiu ao meu colo, muito enroscado e com a mão direita a agarrar-me com força, os dedos pequeninos e gordos a beliscarem-me. Nunca foi de bom dormir, até aos seis meses mamava sofregamente de duas em duas horas, vá lá, às vezes de três em três. Depois passou a dormir mais horas, sei os truques todos, papa no leite, um biberão cheio até cima e pelo menos seis horas de sossego e silêncio. Às vezes. Porque ainda há noites em que acorda a meio e só adormece com colo e mais biberão e tudo isto é uma canseira boa porque nem sei há quantos anos não durmo a direito. Estes bochechos de sono dão cabo de mim.

Foi assim há um ano, o sinal de que as noites não iam ser fáceis mesmo antes de nascer. Numa segunda-feira, era dia vinte e um, fui trabalhar e às onze da manhã lá estava no centro de saúde para a consulta das quarenta semanas bem medidas. Dali para o hospital com uma carta "urgente", que o ritmo cardíaco do bebé não estava regular e eu tinha contracções. Tinha? Ecografia, ctg, internamento. Falei a sério com a médica e pedi para ir a casa. Ela deixou, voltei ao trabalho, almocei e arrumei as tralhas para seis meses de ausência. Fui a casa buscar as malas, liguei ao João e à minha mãe e voltei ao hospital. Eram umas três da tarde, agora já não me lembro bem das horas. Confirmaram-me que tinha contracções, ligaram-me ao ctg e instalaram-me. Perguntaram-me que música queria ouvir, espetaram-me o braço, o soro a pingar e o tempo a passar. Li revistas e livros, dormitei, pus a conversa em dia com o João - que entretanto chegou - destinei jantares e almoços para os dias seguintes; à hora do jantar ele foi para casa. E eu ali deitada, com tanto que fazer e sem poder fazer nada, que maçada. Nenhuma dor, nenhum desconforto, só a chatice de estar naquela posição.

Não me deixaram dormir. Era o destino... Cada vez que adormecia as contracções paravam e lá vinha um enfermeiro ver de mim. E acordava-me. A manhã trouxe uma equipa nova caída do céu. O chefe de equipa era o pai duma amiga minha, um senhor duma calma assustadora. Havia uma enfermeira que me contou todas as viagens da sua vida, mesmo as da solidão que às vezes sentia quando chegava a casa sozinha depois de pôr meia duzia de bebés nos braços de meia dúzia de mães. Neste hospital nascem seis a oito bebés por dia o que faz do bloco de partos um quase luxo.

Às dez horas chegou o João. As miudas comeram? Deste o xarope à Carminho? A Inês fez o Pulmiciort? Trouxeste o que te pedi? Depois veio o médico outra vez, isto está a andar, devagarinho mas está, tem que ser assim para o bebé não entrar em sofrimento. Entretanto, expliquei muito bem explicadinho o meu plano de parto, a chefe das enfermeiras ia franzindo o nariz mas acenando que sim, que fariam os possíveis, que íam ver, que estava a ser um dia calmo e que até podia ser que corresse tudo como eu queria.

Às duas da tarde senti uma contracção. Depois outra. Uma coisa de nada mas pronto, o suficiente para me alegrar e me fazer tocar a campainha e chamar a enfermeira. Cinco minutos depois, cinco!, tinha uma equipa de anestesistas à minha volta para me espetarem uma agulha nas costas. Mas... mas... Mas nada. Já estava. Acho que foi a epidural que desencadeou a coisa. Eu via as contracções no monitor e às cinco e vinte comecei a senti-las. Mesmo. Lá veio a anestesista, não fez nada que se visse, tire-me mas é a agulha das costas que isto não está a fazer efeito nenhum e ela, muito calma, está pois e de repente só me lembro de dizer - vai nascer, toca aí a  porcaria da campainha.

Apesar do aparato, eu só dava ordens - não quero episiotomia, não se esqueçam! E não me levam daqui o bebé. E quero dar mama já e não quero ficar no recobro no corredor. A enfermeira das viajens literalmente abriu caminho ao rapaz que nasceu às seis e cinco. Tinha o cordão mais pequeno que aquela equipa jamais tinha visto e por isso é que estava com alterações do ritmo cardíaco nas minhas contracções. Foi aspirado, lavado e vestido mesmo ali à nossa beira, para consolo de quem o vestiu - já há tanto tempo que não vestia um bebé com cueiros e folhinhos! Agora é so babygrows...

Pesava dois quilos novecentos e sessenta e não sei quanto media. Não levei pontos, dei mama passados cinco minutos e não fiquei no corredor.

Hoje está a chover. Não faço a mínima ideia do tempo que fazia há exactamente um ano porque só vi o cair do dia quando me levaram para a enfermaria às sete da tarde. Estava sol.

 

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© Rita Quintela
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