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Mãe-Galinha

Sarilhos grandes

15.01.09

Hoje deixei o miúdo na creche durante uma hora. Quando cheguei, estava a chorar e não tinha comido nem metade da sopa. Isto, senhor Policarpo, isto é um sarilho dos grandes. De hoje a uma semana regresso ao trabalho e nunca me custou tanto despegar duma cria. Foram muitos meses, só eu e ele. Muita mama, muito mimo e muito colo. Tantos dias e tantas noites. Estou feita Madalena chorona e acho que o facto de ainda amamentar - o que me destrambelha as hormonas, não ajuda nada. Isto é outro sarilho, senhor Policarpo.

Há dois dias, armada em boazinha, escrevo para os recursos humanos do sítio onde trabalho - que se me estão a acabar as férias, que para a semana regresso, que pretendo usufruir das dispensas para amamentação, e, estúpida, chamem-me estúpida, como o meu horário é em regime de jornada contínua, quais os intervalos a que tenho direito. Ninguém me respondeu mas enviaram-me os mails trocados lá entre eles - que o artigo não sei quantos do regime de carreiras da função pública que por acaso entrou em vigor durante a minha licença não prevê esse tipo de horário e por isso vão ser harmonizados procedimentos (Não é bonito, harmonizar procedimentos?) e tal e tal. E isto, senhor Policarpo, isto de eu ter que trabalhar à hora a que devia estar a pôr manteiga nos pães do lanche, isto é que é um sarilho e dos grandes!

Eu, que não sou parva de todo, leio a tal legislação de fio a pavio, perco horas de sono a harmonizar os artigos sobe duração do trabalho e protecção da maternidade e lá descubro que afinal não mudou assim tanto como isso e, com boa vontade e sem infringir a lei, posso continuar a trabalhar seis horas seguidas. A ver se alguém me responde aos mails.

 

Entretanto, tenho a carteira toda suja de baba e de bocados de sopa. Outro sarilho. Lá dentro jazem cartas e mais cartas de contas para pagar e prestações a vencer e olhe que lhe cortamos o gás e as finanças à perna por causa daquela declaração anual que ninguém sabia que tinha que ser entregue. Também bocados de pão, cigarros esmigalhados e muitos lenços cheios de ranho. Policarpo, amigo, emprestas-me a tua pochete preta? Ou sacas aí uns trocos às caixas de esmolas e mandas aqui para a terra? É que isto das contas para pagar e das carteiras a cheirar a surro é cá um sarilho....

 

Quando ouvi o Policarpo, lembrei-me da minha mãe,  que a minha mãe nunca gostou de nenhum dos meus namorados. O meu marido também não lhe caiu nas graças, apesar dos do rol de netos que já lhe demos. Lembro-me tão bem, parece que a estou a ouvir

- Ai esse tipo (fosse quem fosse)... Esse tipo só te vai trazer sarilhos, vais ver! Depois não digas que não te avisei! 

Eram todos católicos e um até tinha sido seminarista. Ah! Lembro-me agora que numas férias de verão tive uma paixoneta por um padre. Credo!

 

A minha mãe avisou-me, a minha vida tem sido uma ensarilhada das grandes mas enfim, cá vamos sobrevivendo bastante felizes.

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© Rita Quintela
IBSN 7-435-23517-5

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