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Mãe-Galinha

Ainda não tem dez anos.

04.07.08

É gira que se farta, agora mais brilho nos olhos, o bronzeado, os óculos arrumados de vez, sem as olheiras das noites encurtadas entre provas de aferição e testes de piano.

Invejo-lhe as pernas, a energia, a inocência, o tempo, tanto tempo.Os cadernos muito aprumados, a letra perfeita, a sofreguidão pelos (meus) livros, as lágrimas de emoção que não esconde nem a ver desenhos animados (eu gostava de ser assim), e o mundo inteiro por descobrir. Em meia-ponta e sem atrasos.

 

Há anos que namorava o mesmo miúdo, aquelas coisas de infantário, disparatadas, que fazem rir muito as mãezinhas. Foram para a mesma escola primária, a mesma turma, os mesmos gostos. Mas um dia apareceu outro com falinhas mansas, sms melosos, promessas de bocados de lua e muitos amo-te princesa. Com o primeiro nunca foram precisas palavras, diz-me ela agora. Era só saber que estava ali.

Um dia ela disse-lhe que era o fim e ele fartou-se de chorar. Nove anos... 

Deixou de vir dizer-me olá mãe-da-maria à porta da escola e passou a desviar o olhar. Eu sem saber de nada, quer dizer, sabia que havia outro, é assim a vida. Enchi-me de pena e compaixão mas calei-me.

 

O miúdo não desistiu e convidou-a, como sempre, para a festa de anos. Ela, estúpida e do alto da prepotência, rasgou-lhe o convite na cara. Ele definhou e definhou e a mãe aflita, telefonou-me. Se eu sabia do que se passava, quem era o outro, o filho a definhar e eu mas... mas... nove anos... mas...

 

Vesti-me de mim e falei com ela-filha de mulher para mulherzinha deitando abaixo todas as teorias de que mãe é mãe e filha é filha e eu quero ser amiga dela mesmo sabendo que sou a mãe. Mostrei-lhe o que fazia doer.

 

Conversaram, ficaram amigos, voltaram aos mails e às conversas.

 

Anteontem ao jantar pediu licença para ir esta tarde ao cinema com ele. E com a mãe dele.

Nove anos...

- Voltámos a namorar, sabias, mãe?

Vou levá-la às 16h15.

 

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© Rita Quintela
IBSN 7-435-23517-5

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