Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Mãe-Galinha

Foi feriado

Rita, 28.04.08

Em casa dos meus pais havia um rádio vermelho, rectangular, com uma pega amarelada e que funcionava com umas pilhas muito gordas. Era um rádio pequeno, aí com 30 centímetros de largura e que contava já com alguns anos. (Situe-se esta descrição aí no final anos setenta). Por causa desse rádio, a minha imaginação voava que se fartava. O meu pai contava vezes sem conta que, antes de eu nascer, tinha que se esconder debaixo da cama para ouvir as músicas do Zeca Afonso e os relatos das movimentações revolucionárias. Também foi esse rádio que trouxe a boa nova da democracia. Teria eu uns oito ou nove anos, vi que uma das minhas tias tinha uma enorme cicatriz numa coxa. - Foi um tiro! – Sussurraram-me - Um tiro? – Perguntava eu, vezes sem conta, de olhos arregalados - Pois… Ela era do MRPP… (e ficava depois um silêncio desconfortável no ar, como que se ficassem histórias por contar e verdades por dizer). Cresci assim, com a consciência política possível a roçar a esquerda revolucionária e com muitas histórias de manifestações, perseguições e até prisões. Um dia perguntei ao meu pai: - O que é ser “de esquerda”? Ele endireitou os óculos e disse: - Ah! Isso não tem nada que saber. Ser de esquerda é sentar-se do lado esquerdo, na Assembleia da República, só isso. De resto, é tudo a mesma coisa; ser de esquerda ou de direita, isso são só nomes que se dão às coisas. O que realmente interessa é a maneira como se vivem essas coisas. Ora bem, na altura, eu teria os tais oito ou nove anos e aquela explicação chegou-me. Tendo por base as histórias fantásticas que ouvia, achei que também devia ser “de esquerda”. Passei, portanto, a sentar-me à esquerda da minha colega de escola, a carregar a mochila no ombro esquerdo e tentei desesperadamente aprender a escrever com a mão esquerda (hoje sou praticamente ambidextra!). Mais tarde, em tempos de namoro, passeava de mão dada (a esquerda) e hoje, casada e mãe de família, durmo do lado esquerdo da cama. No regresso de férias (vividas num local onde abunda o tradicionalismo) e em reflexão pré-eleitoral, concluo que isto da esquerda e da direita é um grande disparate. Ninguém consegue ser absolutamente fiel a um conjunto de princípios rígidos e o que mais vi foi malta de direita em exageros de esquerda. E o contrário. Por mim, trocava as voltas todas a isto, e fazia do hemiciclo um círculo completo e não havia cá mais esquerdas nem direitas. Faziam-se rodinhas, tipo indo eu, indo eu a caminho de Viseu, viam-se os senhores deputados todos cara-a-cara e, de olhos nos olhos, talvez as conversas fossem outros. O rádio vermelho, esse nunca mais o vi. 

 

Texto originalmente publicado no jornal "Notícias do Centro", em Setembro de 2006

O nome e os conteúdos deste blogue estão protegidos por direitos de autor.
© Rita Quintela
IBSN 7-435-23517-5

1 comentário

Comentar post