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Mãe-Galinha

Do(res de) crescimento

13.03.07
Não resisto a abrir o envelope endereçado "à médica de família de". Sei que não será uma entorse, jé tive uma e lembro-me bem. É outra dor, aguda, agulha. A entorse dói toda, não é assim.
Descubro em mim o tempo a passar e pela primeira vez preocupo-me verdadeiramente com a idade. Não quero saber das rugas à volta dos olhos nem do perímetro abdominal onde a minha filha mais nova gosta de esconder os sapatos das barbies (Ó mãe! Senta-te, para ficares com a dobrinha e era o armário dos sapatos, tábem?). Preocupa-me a falta de mobilidade, a dor, o corpo a não responder às minhas ordens de "mais depressa". Dói-me um tornozelo há meses e sei agora que lá está uma artrose. E que terei outras, talvez uma na mão esquerda. Quero lá saber da pele seca, da vergonha em usar biquini por causa de tanta celulite. Dói-me muito um tornozelo. Tanto, que quase não consigo evitar gemer ao descer um degrau.
Não passa - diz-me a médica. Talvez a fisioterapia ajude, estes comprimidos para as dores, mas as artroses não passam.
Eu pasmo.
Aflijo-me com o passar do tempo. Este tempo pelo qual fui esperando pacientemente, lentamente, aproveitando como soube cada detalhe (do crescimento delas - a minha maior aventura). Lembro-me de quase tudo delas, esqueci-me de tantas coisas. Sempre soube em mim a memória selectiva dos sorrisos e quis tanto tê-las assim, companheiras. Quero mostrar-lhes o mundo.

A minha filha mais velha tem oito anos, um corpo já a fugir de menina, um sorriso fácil. Doem-lhe as costas e prescrevem-lhe uma série de exames. Dizem-me que será do ballet e eu não quero acreditar que lhe vão roubar o sonho que não me deram a mim. (Pergunto-me tantas vezes que direito tenho de lhes abrir as portas que gostaria de ter tido minhas...). Não lhe digo grande coisa, desdramatizo os exames e as procupações médicas. Quer entrar sozinha na sala dos rx. Ouço-a conversar com o radiologista e saem ambos a rir. Ele olha para ela, olha para mim
- Não pode ser a mãe da Maria! É tua irmã, não é? - pergunta-lhe
E ela ri-se; eu sorrio e tenho ainda mais medo do tempo.
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© Rita Quintela
IBSN 7-435-23517-5

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