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Mãe-Galinha

NEM DE PROPÓSITO

Rita, 10.12.04
Ontem, em conversa com a Cristina:

- A M. (8 anos) tem tido insónias e dores de barriga inexplicáveis.

- Achas que é por causa da escola? - perguntei

- Não. É por causa de Deus.

- De Deus?!

- Sabes, a M. não anda na catequese, nem é baptizada! Mas farta-se de rezar. Dou com ela imensas vezes ajoelhada aos pés da cama a rezar.

- E?!

- Nada... Acho muito bem que ela tenha a fé dela. Eu também tenho a minha. Quando ela fôr mais crescida, decidirá acerca da religião.



Eu continuava intrigada:

- Mas o que é que a religião tem a ver com as insónias?

- Acho que ela se sente mal porque as amigas andam todas na catequese... Ela sente-se posta de parte.

- És capaz de ter razão...

- Ainda por cima noutro dia, em que ela não se acalmava, perguntei-lhe se havia algum problema e ela respondeu-me que às vezes, quando não rezava à noite, não conseguia dormir. Eu lá lhe expliquei que não precisava de rezar sempre ajoelhada, que se podia deitar e pensar em Deus e rezar assim, de olhos fechados. Ela olhou para mim e perguntou "A sério?!" Depois expliquei-lhe que se ela não rezasse, Deus não a castigava.



- Sabes que eu acho o máximo ela fazer isso? Rezar assim, sem obrigação... Preferia mil vezes que as minhas filhas tivessem assim uma fé liberta do que lhes enchessem a cabeça de metáforas na catequese - disse eu, semi-entristecida

- Pois, por isso é que decidimos que a M. não iria... Mas não sei se fizemos bem. Parece que agora ela tem este fanatismo porque não sabe gerir bem as emoções relacionadas com a espiritualidade. E isso está a afectar-lhe o bem-estar.

- Nunca sabemos se as nossas opções são as mais correctas. Especialmente quando envolvem os miúdos...



Ficamos uns momentos sem falar. É assim, no silêncio, que melhor se avalia a importância da fé. Seja ela qual fôr.



(Eu, pessoalmente, preciso de acreditar que existe um anjo-da-guarda que vela por mim e pela minha família. Baptizei as miúdas com convicção. Mas daí a ter que aceitar alguns fundamentalismos, vai um passo muito grande!)
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© Rita Quintela
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