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Mãe-Galinha

Eu mereço

Rita, 25.04.06
Logo naquele dia é que não saí de casa de máquina fotográfica a tiracolo.
Eu mereço.
Todos os dias a levo. Naquele dia esqueci-me. Deve ter sido por causa dos nervos; quando abri a máquina da roupa, ainda não eram sete e meia da manhã, sai-me para cima dos pés um jacto de água escura. Não quis acreditar, fechei a máquina, limpei o chão e fui à minha vida.
Eu mereço.
Não me perdoo ter-me esquecido da máquina. Logo naquele dia, o dia negro da máquina da roupa entupida, o dia em que, ao tentar fechar a porta do carro a meio de uma correria para levar as miúdas ao conservatório num dia em que não era suposto ser eu a fazê-lo, a porta não fecha.

É que não fecha mesmo. A porta do lado do condutor. Aquela porcaria da lingueta caiu, ou partiu-se, ou o que raio foi e a porta limitava-se a ficar ENCOSTADA.

Eu a stressar.

Eu mereço.

Como é que eu fecho a merda do carro? (parece-me que é a primeira vez que escrevo merda neste blogue mas sem esta palavra, não consigo descrever a cena).

Primeiro parti duas esferográficas a tentar pôr a lingueta para cima.
Depois, abri o porta-bagagens, olhei lá para dentro, e pensei:
- Deve haver aqui uma caixa de ferramentas.
Não havia.
- Deve haver aqui qualquer coisa que eu possa usar para empurrar a peça...
Lá descobri umas cintas elásticas com uns ganchos nas pontas.
Por muita força que fizesse, nada se mexia.

Eu mereço.

Tinha cinco minutos para fechar a porta. Dali a cinco minutos as miúdas terminavam aquela aula e tinham que voltar para a escola. Eu sabia que o João estava longe e não me podia ajudar mas, não sei bem porquê, achei que a culpa daquilo tudo também era um bocadinho dele. E liguei-lhe:
- Blá blá blá a porta não fecha e blá blá blá não há uma porcaria duma caixa de ferramentas neste carro e blá blá blá blá...
- Mas como é que isso aconteceu?
- Sei lá!
- Mas não consegues MESMO fechar a porta?
- Achas que se eu conseguisse fechá-la te estava a ligar?
Ou seja, uma conversa de doidos em que a doida-mor era eu.

Tinha dois minutos. Peguei na tal cinta e amarrei a porta ao banco do condutor. Deixei o carro assim e levei as miúdas a pé. Voltei, meti-me no carro e conduzi naqueles preparo até ao parque do sítio onde trabalho. Tinha que ter fotografado a cena. Esqueci o assunto e fui almoçar. Depois, peguei na carteira, procurei o cartão e liguei para o ACP. Passado uma hora tinha o problema resovido. O rapaz era um poço de simpatia e paciência - arranjou o trinco com um arame e uma chave de fendas - e ainda me elogiou a engenhoca com que fechei o carro.

Pena foi que não percebesse nada de máquinas de lavar roupa senão tinha vindo directo dali cá para casa.

Eu mereço ter tido litros de água a inundar-me a cozinha depois disto tudo. Por muita água que tivesse tirado do tambor, quando puxei a meia da Inês que estava a entupir o filtro, a água saíu numa onda gigantesca que me levou para muito longe. É tarde. Acho que vou dormir.
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© Rita Quintela
IBSN 7-435-23517-5

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