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Mãe-Galinha

O NATAL

Rita, 28.12.04
No dia 24 saímos cedo, com o carro carregado de malas e presentes escondidos. Com gorros, casacos e luvas, que o frio era mais do que muito.

Este ano a consoada foi em casa da avó Emília; mais uma, como ela diz. E este ano o Natal fez-me recordar a minha infância, quando todos os Natais eram aqui.



A viagem era enorme, cansativa. Não havia auto-estrada, nem sequer havia alcatrão num bom par de quilómetros. Não se distribuiam presentes à noite. Comia-se uma ceia farta, de bacalhau com couves e cabrito assado. Cantavam-se os parabéns, que há um tio a fazer anos no dia 24, e depois cada menino deixava um sapato na chaminé; a cada sapato era preso, com uma mola da roupa, um saco. Porque os presentes não cabiam nos sapatos! Oito primos, oito sapatos, oito sacos. De manhã, muito cedo, corríamos e entrávamos naquele mundo de fantasia que só as crianças conhecem. O resto do Natal era feito de invejas e brincadeiras.



Uns anos mais tarde, perdeu-se esta magia da noite mal dormida e começaram a aparecer pais-natais mal amanhados, ora tias ora primos, ora tias e primos, quais renas e duendes. Os primos cresceram. Foi-se de vez o pai-natal e na ceia o cabrito passou a perú. Mas, apesar de algumas enormes tristezas, a família continuou a celebrar o Natal em casa da avó Emília.



Nasceram as pintaínhas, os nossos ai-jesus! e o Natal voltou a ter o encanto de antigamente. Porque o Natal é das crianças, da magia e da inocência.

Este ano, às pintaínhas juntou-se a Francisca que teimosamente não quis dormir enquanto houve festa.

Mais crianças virão, para animar os nossos Natais.



A ceia fez-se de um bacalhau moderno e de perú recheado, assado no forno onde durante anos a fio vi a avó Emília cozer broas. Agora o forno já só assa perús e leitões e a avó Emília já não coze broas nem vai com sacos de milho a casa do moleiro trocar os bagos por farinha. Enquanto comíamos, cada tia foi pé ante pé colocar os presentes ao pé da lareira. Durante todo o dia as miúdas mais velhas esperaram pacientemente a noite. Depois da noite chegar, esperaram o fim da ceia. No fim da ceia, foram espreitar; e dali só saíram arrastadas para a cama agarradas aos brinquedos novos.

A Inês gritava

- Este pai-natal é louco!

A Maria, à conta da emoção, não falava.

A Carminho guinchava.

A Farncisca, nova nestas andanças, teimava em não dormir.



No dia seguinte almoçávamos em Lisboa. O Natal do pai João. Partimos, sem os presentes que regressaram a Aveiro pela mão da tia Gui. Adivinhavam-se volumes imensos no regresso do outro Natal.

Em casa da avó Helena, que lá de cima nos abençoa, a véspera de Natal tem outos cheiros e sabores que provamos ano sim, ano não. É como o dia de Natal, em que ano sim, ano não, regressamos a casa da avó Emília. Este ano foi assim. E assim sendo, lá estávamos em Lisboa, pontualmente às três da tarde, já com as crianças obviamente almoçadas (e de sesta feita na viagem).

Somos muitos, mais de cinquenta. Muitos que trocam presentes entre si, baralhando a magia das crianças:

- Mas porque é que são as pessoas que dão os presentes?

- Porque o pai-natal tem muito trabalho e pediu ajuda às tias - explico, sem grande convicção em que acreditem.



São dias compridos, cansativos, mas cheios de sorrisos. No meio dos sorrisos, algumas lágrimas da Maria armada em consumista:

- para que é que eu quero isto?!

- eu não pedi roupa nenhuma!

No meio dos sorrisos, algumas lágrimas de cansaço da Carminho. No meio dos sorrisos, o olhar espantado da Inês.



Na noite do dia de Natal, janta-se com o outro lado da família do pai. Restaurante. Mais brincadeira. O sono mistura-se com a excitação. Já tarde, em casa da avó Ana, caem redondas a dormir. Já tarde, eu tento arrumar os brinquedos, deitar fora as caixas vazias, dobrar roupas, refazer malas. No dia seguinte regressamos a casa e mais surpresas estão a caminho.



Antes de sairmos, no dia 24, e já com as miúdas no carro, corri à arrecadação onde foram escondidos os presentes que escolhemos para elas e ainda os presentes que lhes foram enviados por amigos. A árvore de Natal ficou imensa naquele mar de embrulhos.



Quando chegámos, cansados, com fome e com o carro cheio, correram para a sala, na esperança que o pai-natal tivesse passado por ali.



Gritos, sorrisos e choros.

- Eu também queria uma varinha de condão...

- Toma, eu empresto-te.

E com esta varinha mágica quase-a-sério se voltou à magia do Natal.
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