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Mãe-Galinha

Scissor Sisters

Rita, 14.05.07
Esta mania de não fazer jantar aos Domingos é uma treta e dar-me-ía muito menos trabalho fazer um tacho de arroz e meia dúzia de bifes do que passar não sei quanto tempo em pé a servir sopas, fazer tostas mistas ou grelhar hamburgeures
- o meu em pãoo de forma e com queijo!
- O meu em pão normal e sem tomate
- O meu no prato com o resto de arroz do almoço
ou
- A minha tosta isto
- A minha aquilo
E eu:
- Porra!!! Levantem esses rabos das cadeiras e façam qualquer coisa - penso.
Mas não digo. Porque maior seria aconfusão se andassem todas a cirandar por ali, uma à procura da alface, outra da mostarda, outra a polvilhar o pão com queijo ralado (que a pequenita põe queiijo ralado em tudo).

Isto tem, portanto, que acabar; mas ainda não acabou e ontem repetiu-se a cena.
Jantámos cedo, que a pequenita não tinha dormido a sesta e o lanche tinham sido uns gelados para elas e uns cafés para nós, eu e o pai delas.
Ainda não eram oito da noite e já eu estava dentro da banheira. No seguimento do PPD, armei-me de gillette e cortei os pêlos dos sovacos, esfreguei-me com o sal do Eslovénia e, a seguir, peguei na epilaidy que não sei como ainda funciona, se já tem, seguramente, mais de quinze anos de uso.
Ziiiiziiiiiziiiiiziiiiiziiiiziii - e eu sem um ai,que depois das dores dos partos quase nada me faz soltar um supiro que seja.
Ziiiiziiiiziiiiziiiiziiiiziiii - e a curiosidade masculina a espreitar-me pela porta e a esbugalhar os olhos. Elas já não ligam a estes preparos e até já quiseram experimentar. Devo treiná-las para as dores da condição feminina? Ele arregala-se.

Pronto, eu digo - estar a deixar de fumar obriga-me a ocupar-me e a única maneira de não pensar em cigarros depois de jantar é adiar o café e mimar-me.
Não fecho a porta da casa de banho senão sufoco, e está ainda frio para abrir a janela por isso os meus mimos também são outros:
- Ó mãeeeeeeeeeeeeeeeeee!! Olha a Maria que não me deixa em paz!
- Ó mãeeeeeeeeeeeeeeeeee!! Olha as manas que não querem brincar comigo!
- Ó mãe, a Carminho está a carimbar os lençóis.
- A carimbar? A carimbar como?
- Ó mãe... daaahhh... A carimbar com os carimbos, querias que fosse com quê?
- Diz-lhe para estar quieta.
- Já disse.
- Chama o pai.
- Já chamei.
- E ele?
- Diz que já vem.
- Que já vem! Que já vem! E entretanto destroem-me a casa... Fechem-me a porcaria da água! Quem é que abriu a água quente?

Pego na luva de borracha que tem umas bolinhas e no creme anti-celulite marca Dia e que cheira a alcool que tresanda e esfrego, esfrego, penso no tipo do banco que me desviou o dinheiro guardado para as compras do mês para a dívida do cartão de crédito, e esfrego, esfrego, a pele toda vermelha, e penso no filho da puta do gajo que inventou o imposto municipal sobre as transições onerosas de imóveis e esfrego, esfrego, a pele quase em ferida, a celulite toda lá, e mais uma conta para pagar.
- Mas nós já não pagámos esta merda?
- Já... Isto é a diferença
- A diferença de quê?
- Do valor da escritura e da avalaiação; já lá fui às finanças perguntar.
- Ai o caraças. Isto são quase mil euros.

Depois olho para o espelho
- Não façam barulho que a Carminho já está a dormir - este pai que deita a filha enquanto a mãe fechada na casa de banho, fechada não, senão sufoca, se livra dos pêlos e esfrega os granulados.
Este pai.
E eu olho para o espelho e penso nelas, penso nele, penso em mim.
- Tenho que mudar. Tenho que mudar. Tenho que mudar.

Então, num gesto, abro a gaveta, pego na tesoura e corto o meu próprio cabelo.
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© Rita Quintela
IBSN 7-435-23517-5

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