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Mãe-Galinha

HÁ COISAS DAS QUAIS NÃO SE APRENDE A GOSTAR

07.10.05
Há uma série de pré-requisitos que deviam ser exigidos às mães, digo eu.
Vários, vasto e completos.
Podiam vir com as hormonas da gravidez, com os comprimidos de folifer ou com umas quaisquer gotas milagrosas. Mas não. Há pré-requisitos que ou se têm ou não se têm e, quando não se têm, é o cabo dos trabalhos.

A mim sempre me fizeram muita confusão os golpes, os acidentes nos olhos e, nalgumas situações, as agulhas. Sempre, desde que me lembro de ser gente, que me arrepio se me ocorre um pedaço de pele cortado por uma lâmina ou uma agulha enterrada num braço.

A experiência não me atenuou os arrepios...
Há uns anos a Maria caíu, abriu o lábio, levou uma data de pontos e eu não consegui olhar. No Carnaval do ano passado a Inês fez uma úlcera da córnea com um elástico dum nariz de palhaço, magoou seriamente o olho, foi parar ao hospital, andou não sei quantos dias de olho tapado, e eu não quis ver. Há poucos meses a Carminho teve uma hipotermia, teve que fazer análises, esteve mais de vinte minutos a ser picada, eu a agarrá-la enquanto ela se debatia com o choro, mas nunca olhei.

Esta noite quase não dormi.
Era um aperto no peito, uma irritação, uma "comichão" interior, um desconforto...
Mesmo agora, enquanto escrevo isto, tento respirar fundo e pensar que o desconforto dela é maior do que o meu e que se calhar ela também não dormiu bem e que eu tenho é que lhe transmitir que isto não custa nada.
Mas não sei se consigo.

Há uns tempos, uns dois meses, apareceu-lhe no peito uma bolinha pequenina, muito pequenina,. parecia uma bolha de água. Passámos na farmácia:
- ah... é uma verruga... não se preocupe. Isso passa.
Cresceu um bocadinho, a bolinha.
Pedimos outra e outra opinião.
- É uma verruga!

Não era.
Há uma semana, ao dar-lhe banho, reparei que além daquela bolinha havia mais umas quatro ou cinco.
Feliz- (ou infeliz)-mente, há mais de três anos que a Inês visita uma dermatologista em Coimbra.
Nasceu com uma pequena alteração na pele das costas (um aparente fibroma elástico).

Nesse dia, portanto, corri para o telefone e marquei uma consulta. Urgente.
Fomos lá ontem, eu e ela, ao fim da tarde.

- Ó mãe... - suspirou a médica - Sabe o que é isto?
- Imagino... (tinha pesquisado e sabia que havia a possibilidade de ser um molusco)
- É um molusco contagioso! E já tem tantos...

Uma querida, a médica. A Inês deitou-se e ela contou-lhe uma grande história sobre tirar dali os bicharocos com a unha. Mas que era melhor ela ter os olhos fechados para os bichos não terem vergonha de sair e blá blá blá.
- Então a mãe vai-se sentar aqui e põe a mão nos olhos da Inês e vai VER MUITO BEM COMO É QUE EU FAÇO PARA DEPOIS FAZER EM CASA, está bem?

Percebi logo que "a unha" era uma agulha. Que fura a "borbulha" de uma lado ao outro e puxa a pele para cima para deixar sair a porcaria que lá está dentro. Um nojo. Eu a olhar, a tremer, a médica a pedir-me para não tremer, o sangue, a miúda quase sem se queixar , sem deitar uma lágrima, só a dizer "ai..."

Depois os conselhos - desinfectar, por esta pomada, tirar este e mais este em casa, e os outros que aparecerem.

- Que forte, Inês! - dá cá um beijinho.

E fomos embora, depois de medido o fibroma e vista a cara da mãe, no lastimável estado que todos os outonos anunciam. Fibroma estável, mãe a antiobiótico.

No carro, largou-se num pranto, comeu um croissant e adormeceu.
Eu pensei que isto não era nada, que é muito comum, que milhares de miúdos apanham esta porcaria, que é de noite, que estou cansada, que está um trânsito infernal, que hoje ainda não vi as outras miúdas mais do cinco minutos e provavelmente chego a casa e já estão na cama. Mas, sobretudo pensei que, lá porque sou mãe, não tenho que ter estaleca para tudo. E para estas coisas, definitivamente, não tenho....
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© Rita Quintela
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