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Mãe-Galinha

POR INSTINTO

Rita, 12.10.04
Nunca pensei verdadeiramente se um dia seria uma boa mãe. Nunca reflecti sobre um futuro desconhecido. Ao contrário do que parece, pauto a minha vida por uma atitude (pouco visível) de não prever. Não prevejo, não sofro por antecipação, não vivo alegrias que ainda não aconteceram. Vivo o dia-a-dia. Acontece que sou tão doentiamente organizada que deixo transparecer uma certa visão de futuro. Que não é real. Faço hoje porque tem que ser feito hoje e não porque não pode ser adiado para amanhã.

Serve este parágrafo para ver se me organizo para um post, ou resto de post, acerca de "como sei se serei boa mãe", há muito referido pela doce Manecas num longo e-mail.

No passado eu não sabia se iria ser boa mãe. Aliás, eu não sou boa mãe. Eu quero ser uma boa mãe. Eu aprendo todos os dias. Erro todos os dias. Grito sem razão todos os dias. Rio-me com as minhas filhas todos os dias. Sinto-as felizes todos os dias. Às vezes sinto que não estão tão felizes. E quero que essas vezes deixem de existir. Não tenho paciência para argumentos do género "É assim que se aprende. A vida não é um mar de rosas." Pois que não o é sabemos nós, que somos adultos e conseguimos apreender os factos com racionalidade. Às crianças é preciso deixá-las acreditar que a vida é toda côr-de-rosa e a nossa casa é um palácio de açúcar e chocolate. Têm tanto tempo para sentir que a vida não é um mar de rosas...



Salvo raras e tristes excepções, o instinto maternal funciona muito bem. Amamos incondicionalmente os nossos filhos, protegemo-los, alimentamo-los. Por instinto. Nos primeiros meses de vida de um bébé, a mãe vive por instinto e o pai vive por arrasto do instinto da mãe; esse arrasto, despojado do instinto animal, faz com que normalmente, nesses primeiros tempos, o pai viva muito mais docemente o bébé. Nessa fase, não há mimos a mais. Todos os mimos são de menos, todo o colo é de menos. Um bebé pequenino precisa de contacto físico, de mimo, de canções de embalar. Chegou agora e não sabe bem o que isto é.



Depois, a partir de uma certa fase, que não tem idade, é preciso começar a educar os comportamentos. E aí sim, é preciso conta, peso e medida. Famílias felizes e equilibradas geram crianças felizes e equilibradas. E famílias felizes e equilibradas não são necessariamente famílias tradicionais. Conheço muito boas mães que vivem sózinhas com filhos exemplares e conheço também famílias tradicionais onde não há o mínimo respeito pelos comportamentos socialmente aceitáveis.



Não há receitas para nos tornármos bons pais. Quase sempre são os filhos que nos guiam. Se não existirem grandes discrepâncias (a mãe a dizer uma coisa, o pai a dizer outra e a avó a contradizer tudo), a educação não é mais do que o conjunto das vivências do dia-a-dia. Sem limites no que diz respeito ao amor.
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© Rita Quintela
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