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Mãe-Galinha

Os sacrifícios

Rita, 20.10.06
Os filhos saem-nos das entranhas e com eles aquele instinto de loba assanhada de os proteger, de sacrificar cordeiros por eles, de os abraçar com braços interemináveis.

Pronto.
A poesia está no parágrafo de cima. É uma poesia real, que a mim também me invadiu a a síndrome de loba assanhada quando as vi fora de mim, desprotegidas e com frio.

As minhas filhas não são minhas. São do mundo; são miúdas do mundo mas não são miúdas da rua se bem que às vezes pareçam. São felizes e isso vê-se-lhes na porcaria com que me apresentam, ao fim do dia, as fatiotas que tão bem lhes assentavam de manhã. Vão limpas e cheirosas. Voltam sujas. Brincaram muito, suponho. Ou então gostam de ver a máquina da roupa a trabalhar.

As mães é que são dos filhos e as mães sacrificam-se pelos filhos. Eu não me sacrifico só pelas minhas. Também me sacrifico pelos filhos dos outros e ontem, nesta alínea dos sacrifícios generalizados, estive perto do limite daquilo que deve poder ser o verdadeiro sacrifício.

Primeiro vesti a armadura de ferro mas pintei os olhos. Endireitei as costas, coisa que no meu caso acaba por favorecer as frentes (que são assim umas frentes pequenas, tipo T0 nos arrabaldes), meti à boca um smint que me consumisse o mau-hálito e entrei a matar, de armas em punho.

- Ou o senhor manda fazer a porcaria das obras na escola ou nem sabe o que lhe faço!
(mas sei eu senhores, sei eu o que te fazia, que destilas charme por tudo quanto é poro)
- Mas não temos dinheiro e tal e tal, e o orçamento, e tal e tal...
(eu seja ceguinha se a seguir não vamos mas é tomar um café e para isso já vai haver orçamento...)
- Ah! Pois é! Mas eu não quero saber e olhe! Nos até lhe arranjamos os materiais todos e blá blá e o senhor só disponibiliza a mão-de-obra.
(ai a mão-de-obra...)
- E digo-lhe mais! - acrescentei
(e dizia, se pudesse...)
- Estas fotografias que aqui estão chegam num instantinho ao jornal xpto!
- Ai isso é que não!
- Parece que nos estamos a entender...
(a falar é que a gente se entende)

E a conversa continuou durante mais de uma hora; ficou tudo mais ao menos alinhavado, que eu não quis as costuras prontas de uma vez. Para a semana lá estarei para uma ova batalha.

Se ter que mostar assim os dentes de loba assanhada a um cordeirinho desprotegido não é sacrifício, eu vou ali e já venho.
(olha! posso ir ali à ... ai! não posso dizer)
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© Rita Quintela
IBSN 7-435-23517-5

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