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Mãe-Galinha

NATAL #1

Rita, 11.12.04
Todos os anos, por altura do Natal, chovem solicitações de solidariedade. E todos os anos, por altura do Natal, me questiono acerca do propósito de mil e uma campanhas que apelam à dádiva.

Cá em casa, vivemos com o que temos. As miúdas não têm tudo o que querem, as roupas passam de umas para outras, agora passam passam também para primas e primos, e hão-de voltar, mais usadas mas mais cheias de histórias de amor. Cá em casa, não se janta fora. Cá em casa, não se vai mais vezes visitar a família porque a gasolina e as portagens custam dinheiro. Cá em casa, as férias significam um enorme esforço financeiro suplementar.

Mas cá em casa, todos os dias nos preocupamos com que não tem sequer o que nós temos. Preocupamo-nos sobretudo com as crianças. E de vez em quando, há brinquedos que são cuidadosamente embalados para serem oferecidos a quem não tem. E livros. E comida. Todos os dia, e não por ser Natal.



Esta manhã vi a Maria com um dos seus ursos preferidos na mão. Um urso preto, lindo, oferecido por uma pessoa especial.

- Onde é que vais com o urso?!

- Vou levar para a catequese. Temos que levar um brinquedo de que gostemos muito para oferecer aos meninos qiue não têm brinquedos...

Notei-lhe nos olhos uma certa tristeza.

- Não precisa de ser esse urso. Podes levar outra coisa!

- Mas eu gosto muito deste. Tenho que levar este.

- Não. Vai lá escolher outra coisa.

- Vai tu, mãe (como se o facto de ser ela a ir escolher um brinquedo ao qual não tivesse esse amor que só as crianças sabem sentir, como o amor ao urso preto, fosse um pecado a merecer castigo).



Ela entrou no carro e eu voltei ao quarto onde em segundos e sem remorsos troquei o urso por uma boneca igual a tantas outras.

Sei que os valores da partilha e da solidariedade são importantíssimos. As minhas filhas, até pelo facto de serem três, convivem com eles diariamente. Não precisam de abdicar dos obectos que lhes são queridos para fazer sorrir outras crianças. Solidariedade sim, mas sem sacrifício (que esses, fazemos eu e o pai delas para as ver felizes).



Gostava muito que neste Natal todos os meninos do mundo tivessem pelo menos um brinquedo. Gostava muito que neste Natal não houvesse uma boca com fome. Gostava muito que neste Natal não houvesse uma mão levantada para bater nem uma arma apontada para disparar. Nada disto vai acontecer. Nem neste Natal nem em nenhum outro. Para nós, cá em casa, todos os dias são bons para tentar mudar o mundo. Nem que seja com um sorriso.
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© Rita Quintela
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