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Mãe-Galinha

DIA DO PAI - POST ANTECIPADO

Rita, 18.03.05
Acontece que um dia nos cruzámos e hoje temos três filhas.
Sei que são os teus tesouros, dos quais eu também faço parte. Tu, és o rei delas. Nos desenhos com castelos lá estás de coroa na cabeça e eu, de coroa e avental, que na imaginação os papéis não se invertem. Invertem-se cá em casa, que eu dispenso fraldas e cocós, lavagens de dentes e, em tempos passados, mas que espero ainda se venham a reptir, arrotos e bolsadelas. Eu dou mama, tu pões a arrotar. Eu faço o jantar, tu arrumas a cozinha. Eu trato da roupas, tu dás banhos e secas cabelos.
Eu ralho, tu mimas. Tu ralhas, eu mimo.

Acontece que és pai, e eu sou mãe, e que há um dia em que oficialmente se comemora a paternidade (outro haverá para a maternidade). Acontece que felizmente, cá em casa, todos os dias se comora a paternidade e o amor filial. São as gargalhadas da Carminho quando te rebolas com ela antes do banho, são as histórias da Inês que te arrancam as gargalhadas que mais ninguém consegue arrancar, e a Maria, mais doce que mel, e com quem trocas cumplicidades únicas de filha mais velha.

Acontece que te irritas com o mau feitio da Carminho e que não tens paciência para teimosias de quem sai realmente à mãe que tem, e que te aborrecem as lamechices da Inês, sempre a chorar por tudo e por nada (e os xixis a meio da noite e a mania dos pensos rápidos) e a Maria, que não se cala um bocadinho e que tem a mania que é mãe das irmãs e que nunca ouve quando a chamas.
Isto também é ser pai.

Acontece ainda que se a Carminho se engasga no meio de mais uma bronquiolite e vomita o jantar, tu limpas a mesa e o chão e pacientemente a entreténs e a fazes comer "ao menos umas colheradas de sopa". E se a Inês arde em febre tu perdes a cor e agonias-te de preocupação sem mudar de semblante (mas eu já te conheço bem o olhar). E a Maria, de boca ensanguentada e ferida, a precisar de ser costurada e eu, branca de pânico, sem conseguir entrar pelo hospital adentro, nem precisei de dizer nada, e já tu entravas com ela ao colo.

Depois faltaram-te as forças quando a Carminho nasceu e a parteira te ofereceu a tesoura para cortares o cordão:
- ... não faço questão...
- faço eu! - e cortei eu mesma um cordão que existirá doutra forma para todo o sempre.

Acontece que és tão pai quanto eu sou mãe e que é assim que as coisas devem ser.
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© Rita Quintela
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