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Mãe-Galinha

E se eu fosse à bruxa?

13.02.06
Nem me lembro bem de ter voado com ela para a urgência. Lembro-me de me tremerem as pernas e de quase não conseguir usar a embraiagem por causa das tremuras e lembro-me de ter parado o carro em cima de um passeio.

Também me lembro do João (me) perguntar:
- O que foi isto?!
E de a seguir dizer numa voz angustiada:
- A miúda caíu das escadas...

Eu tinha tido um fim de dia dos diabos com direito a calmante de emergência e tudo. Uma quebra de tensão brutal fez despoletar um ataque de pânico e jantei a contra-gosto, acatando o conselho

- Come lá qualquer coisa. O teu mal é fome...

Eu sabia que não era mas não podia, de facto, ficar sem jantar. Acabei por me sentir bastante melhor depois de comer. Basicamente por causa da droga calmante. Acredito que tenha sido esta calma alheia a manter-me o espírito em estado prático.

Não a vimos cair. Tínhamos acabado de jantar e ela saiu da mesa atrás da Maria. Há uns tempo tirámos (a pedido meu) a grade das escadas que sobem. Deixámos outras duas, as das escadas que descem. Aos dois anos e meio a destreza para abrir e fechar o trinco de segurança já não a impedia de passar sempre que quisesse e a mim as grades complicam-me imenso as centenas de vezes que subo e desço. Tirámos aquela, pronto.

A Maria subiu. Ela subiu atrás e caíu. Não sei quantos degraus, não sei de que altura. A Maria jura que foram três ou quatro mas mais ninguém viu. Caíu e ficou imóvel, estendida no chão. O João agarrou-a e ela começou a chorar. Estava muito pálida. Liguei para o dói-dói-trim-trim mas ao fim de trinta segundos de espera, desliguei. O facto do João achar que ela precisava de ser vista preocupou-me. Ele é tão calmo e racional nestas coisas.... Iria eu, claro, que não estava capaz de ficar em casa a arder em ansiedade. Enfiei-lhe um casaco, calcei-me e fui. Falava com ela e via-lhe a palidez pelo espelho retrovisor. Não queria que adormecesse. Ela chorava fora do tom e pedia "quéio ie paia casa".

Dezenas de pessoas na urgência pediátrica. Entrei logo. Ela foi vista.
- Aparentemente não é grave - disse o médico - como é que te chamas pequenina?
- Eu num sou Caminho. Eu sou Maía du Cámo...- e chorava.
Continuava pálida e pediram-me para a pôr no chão. Andava. Avaliaram os olhos. Estavam bem. Não teve vómitos. Melhor.
Saímos para a sala de espera. Apesar da palidez, do choro gemido e do galo, a triagem não tinha indicado nada de especial. Liguei para casa e ouvi o alívio. Depois esperámos. Esperámos no meio de casos nitidamente urgentes e também no meio de "umas borbulhas que lhe apareceram aqui numa perna", de presumíveis conjuntivites e de mães com displantes do género "venho só para me darem uma receita de anitibiótico". Ah! E no meio de pessoas que não compreendem o conceito de prioridade na urgência, claro.
A mãe do menino que tinha borbulhas na perna tinha um livro e um saco com fantoches. Desconto-lhe a falta de senso à conta do serviço público que prestou: Animou uma dúzia de meninos e animou a minha Piririca que finalmente deixou de chorar. Começou a acalmar-se e a querer sair do colo. Pediu para fazer xixi. Quando, ao fim de uma hora, voltámos a entrar, parecia outra. A médica que a reavaliou estava preocupada e não nos queria em casa. Ficámos ali mais uma hora (pelo menos) em observações. Ouvi conferenciarem acerca dos riscos e benefícios de um r-x nestes casos, da ausência de vómitos, da crise de palidez. Explicam-me, mais tarde, já ela estava fina e tagarela, que a palidez se deveu, presumivelmente, a um pico de adrenalina. Que não vai haver r-x, que não se justifica, mas que não a posso pôr já a dormir.

Em casa brincámos mais um bocado. Dormiu connosco e está óptima. Tem um galo e eu tenho mais uma dúzia de cabelos brancos.
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© Rita Quintela
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