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Mãe-Galinha

Vá, riam-se da desgraça alheia

03.08.06
Nem fechei o carro. Viver em cidades pequenas tem destas coisas e, para ir pagar o gás, limitei-me a encostar, pegar no dinheiro e nas chaves e entrar na loja.

Fiz o que tinha a fazer (tanto dinheiro de gás...) e voltei ao carro. Abri a mala, nem sei bem porquê (ah! já me lembro! para guardao o filofax no saco das tralhas) e vi um saco com jornais. Peguei no saco, aproveitei a embalagem e acabei de o encher com chicletes mastigadas, lenços com ranho e bocados de bolachas; atirei-o para dentro do contentor do lixo que estava ali mesmo ao lado e olhei para dentro do carro, muito mais limpo.

Como era cedo e tinha as crias bem entregues, enfim, armei-me em tuga em Agosto e colei o selo novo no sítio, arrumei os documentos na carteira e recortei a vinheta do seguro. Um dia destes ainda dou por mim a limpar as jantes com um esfergão verde.

Qundo me quis ir embora dali, não dei com as chaves. Virei o carro e a carteira do avesso e nada. Voltei à loja e nada. Ocorreu-me, ao de leve, que as chaves podiam ter ido parar ao lixo. O leve foi-se adensando e decidi abrir a tampa do contentor.

Durante alguns segundos fiquei a olhar para o saco dos jornais. O contentor estava vazio, o saco sozinho lá ao fundo, eu sem lá chegar. O contentor era assim



e depois de abrir outra vez a mala do carro só me apeteceu chorar. Tenho tanta merda na mala e logo hoje não havia de ter nem guarda-sol nem para-vento nem guarda-chuva nem nada que me ajudasse a chegar ao saco.

Vivalma na rua. É Agosto. É que ao menos podia passar um miúdo, eu agarrava-o pelos pés e ele agarrava o saco. Ou um anão. Ou um velho de muletas. Uma muleta é que era!

Volto à loja e a senhora que é uma parva que me está sempre a chatear por causa das contas em atraso e a ameaçar que me corta o gás (e eu a ameaçá-la mentalmente que um dia destes lhe corto mas é o gasganete de vez), lá me emprestou um guarda-chuva que

"tenho sempre este aqui de reserva porque nunca se sabe..."

(Nunca se sabe o quê?? Se alguém vai atirar as chaves do carro dentro de uma saco de jornais para dentro de um contentor de lixo vazio, é? Ai que nervos.)

Engoli a vergonha, abri o caixote do lixo, pendurei-me lá dentro e fiquei com os pés a abanar, pesquei o saco, tirei as chaves (ao menos estavam lá, o esforço não foi em vão), atirei o saco outra vez lá para dentro, fechei o contentor, entreguei o guarda-chuva à doutora do gás e fui à minha vida.

Meia hora nisto.
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© Rita Quintela
IBSN 7-435-23517-5

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