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Mãe-Galinha

I kint and run because murder is illegal

11.05.20

Estamos em casa há 58 dias. CINQUENTA E OITO

Já corri muitos quilómetros, mas menos dos que gostaria - tenho um joelho a chiar, muito trabalho acumulado e uma família sempre com fome. Terminei muitos projetos de tricot, comecei outros e  costurei tanto que hoje a máquina de costura teve que ir para o mecânico. 

Fiz uma lista de to do para as ceninhas da casa pendentes há anos - arrumar a garagem e os armários da cozinha, pendurar quadros, emparelhar meias, etc. Manter-me ocupada e com objetivos palpáveis ajuda-me a manter a sanidade. Faço muitas destas coisas sozinha.

Nunca tomámos a decisão de fazer coisas em grupinho - acontece que fazemos algumas, que nasceram por geração espontânea e eu vou ter saudades disto - estamos a aprender uma língua - temos aulas de alemão seis vezes por semana depois do jantar (die Kuh trinkt Wass), fazemos um jantar temático uma vez por semana (sorteamos uma letra, escolhemos um país, pesquisamos receitas e tradições) e às vezes fazemos umas aulinhas de ginástica todos juntos.

O resto vai-se fazendo: eu trabalho, eles têm aulas, às vezes chove e a terra continua a girar à velocidade média de 465 metros por segundo.

 

 

 

...

29.04.20

Ponto da situaçao desta família, para quem perdeu o fio à meada:

M, 21 anos, 1.75m, vive, estuda e trabalha em Coimbra - mestrado em RI. Esteve 2 anos e meio em Lisboa e um semestre em Salamanca. 

I, 20 anos, 1.60m, vive e estuda em Lisboa. Devia estar a um mês de terminar a licenciatura em dança. Veio para casa dia 12 de março e ainda não sabe como nem quando vai voltar a ter aulas.  Passou o semestre passado em Praga. Nada acontece por acaso: é a que tem menos obrigações escolares e tem sido o meu braço direito a gerir esta tropa toda. Há dois meses que não me preocupo com refeições mas as nossas contas de supermercado aumentaram substancialmente.

C, 16 anos, 1.68m. 11º ano em música no conservatório. Vive numa gruta no 1º andar cá de casa. Aparece para comer, passa por nós a caminho da sala da harpa e é muito fôfa porque vê series comigo.

S, 11 anos, 1,58m. O nosso bebé cresceu um bocadinho. Quase a acabar o 6º ano numa turma de dança do conservatório. Também estuda música. E dança noutra escola fora do conservatório. É um miúdo muito físico.Toda a gente o conhece na cidade pelos seus abraços. Não sei como vai ser daqui para a frente ...

Eu e o J. estamos na mesma ;)

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27.04.20

Queria perguntar aos pais dos meninos que estudam música se também estão a amalucar com o ensino doméstico.

Não são as mil escalas por dia, nem as repetições infinitas do mesmo compasso, nem aquelas notas agudas que se espetam do lado esquerdo do cérebro. É o metrónomo, senhores! Isto altera-me as pulsações e bombeia-me o sangue todo trocado. O dia todo a ouvir tic-tacs e à espera do bum.

...

26.04.20

Sabemos que já estamos em casa há seis semanas. Não contamos os dias, contamos as semanas com os jantares de segunda feira (desta vez excecionalmente ao domingo).

Calhou que na primeira semana era o nosso aniversário de casamento e os miúdos fizeram um jantar à maneira. Isto foi na segunda-feira, dia 23 de março. Preparar um jantar é uma aula mutidisciplinar e correu tão bem que decidimos todas as semanas fazer um jantar temático. Sorteamos um país e durante a semana pequisamos pratos e sobremesas. Depois passamos uma dia a cozinhar e no fim comemos tudo. Nos outros dias da semana fazemos workout que nem doidos.

Hoje foi o jantar libanês. Para a semana será Vietname. Já jantámos Russo, Belga, Grego e Paraguaio. Há uns 200 países no mundo? Temos isto despachado em menos de quatro anos.

 

25 de abril de 2020

25.04.20

Sabes como se mede a liberdade? Medes a aflição da falta que te faz ser livre. Já sentiste isso? 

Eu já. Tenho sentido muito isto estes dias. E não é por não podermos sair de casa, ou por ter que ir às compras de máscara e de luvas. Falta-me o ar porque me faltam algumas pessoas.

Hoje furámos as regras e saímos de casa. Esta foi a nossa liberdade: ir de aveiro a coimbra ver a Maria à janela. Dois meses e meio foram muitos dias de falta de ar. 

Alguns anos depois, este foi um bom momento para voltar a escrever aqui.

 

(Maria, 21 anos (!), vive, estuda e trabalha em Coimbra. Não pode vir a casa porque continua a trabalhar e é um eventual risco para nós os cinco).

Ep 1 to 3, season 2

14.10.16

" Porque é que não mudas o miúdo de escola se a escola está a cair?"

 

Quarta-feira, 12/10/2016. 16h15, no carro:

- Mãeeee... Como é que se chama aquela banda que tem uma cantora que é modelo e que se chama Nico e aquele senhor que pinta caras da Marilyn Monroe com cores, e latas de sopa?

- ?! ... Porque é que estás a perguntar isso?

- Porque estivemos a dar hoje na escola ! Diz lá como é que se chama!

 

Mesmo dia, 21h, em casa:

- Mãeeee! Anda ver o mail que a prof me mandou!

Fui. Era isto.

 

Quinta-feira, 13/10/2016, ao jantar:

Inês - Mãe, tenho que fazer um trabalho para desenho blá blá blá capa de jornal blá blá blá e o interior. Dá lá uma ideia.

Eu - sei lá. O Guterres ou a cena do prémio nobel da literatura

Sebastião - O Bob Dylan? O cantor poeta? 

- Como é que tu sabes quem é o Bob Dylan?

- A professora hoje à tarde contou que ele tinha ganho esse prémio. Acho que amanhã vamos ouvir músicas. Se  calhar até fazemos uma pesquisa.

déjà vu

30.09.16

Filha Inês no 12º ano*.

Reunião de pais (porquê, senhores?)

As coisas todas do costume, num power point que termina com este slide:

 

“Todas as manhãs a gazela acorda sabendo que tem que correr mais veloz que o leão ou será morta. Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deve correr mais rápido que a gazela ou morrerá de fome. Não importa se és um leão ou uma gazela: quando o Sol desponta o melhor é começares a correr.” - Mia Couto

 

Andei toda a vida naquela escola. Há trinta anos já andávamos a toque de caixa. Não foi necessariamente mau,

a maior parte de nós fez-se gente grande.Andamos é sempre a correr.

 

 

* sim, a Maria já esta na universidade :)

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© Rita Quintela
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