Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
Esta escola

Perguntam-me muitas vezes se gosto da escola onde andam (as mais velhas).

(Perguntam-me porque a escola tem/teve má fama).

Não gosto nem desgosto, é uma escola como as outras, não tivemos grandes opções. Ou esta, no centro da cidade e ao lado do meu trabalho e a 500m da escola da Carmo ou a outra, da "área de residência" a meio caminho entre casa e a cidade.

Mesmo que tivesse optado por furar o esquema, restavam-nos outras duas escolas que não me dizem mais do que esta e que ficavam ainda mais fora de mão.

Esta é a escola onde eu também andei e já na altura havia de tudo. Em todas as escolas haverá de tudo mas esta anda a primar pelo excesso.  (Eu, mesmo sabendo do "de tudo", não me preocupei com os possíveis excessos)

Aqui há miúdos mal educados, prepotentes, ameaçadores, desrespeitadores.  (A mim preocupam-me sobretudo os ameaçadores).

 

A Maria mais velha nem sempre é flor que se cheire: é respondona e mandona, parece-lhe que vai salvar o mundo e é exageradamente cumpridora. Aqui entra a minha falha - para ela, um deslize dá direito a castigo e anda sempre com as queixinhas na ponta da língua. Habilita-se, claro. Ser  a queixinhas salvadora da pátria e amiga dos professores tem custos valentes.

(A Inês entrou este ano para esta escola mas não se mete na vida de ninguém.)

 

No ano passado, dois episódios sem graça nenhuma tiraram-me do sério. Primeiro foi uma miúda que torceu um pé numa aula de EF e que culpou a Maria de lhe ter passado uma rasteira. A minha jurou e chorou a pés juntos que não fez nada, a professora jurou que não viu nada mas a outra, uma mal educada da pior espécie, não desarmou. E chamou nomes, ameaçou, barafustou. Mas a coisa ficou por ali.

Um dia fui à escola participar numa aula e a a tal miúda cochichou qualquer coisa como "olha a mãe da parvalhona da Quintela" Eu ouvi e quis saber o que é que se passava. Bem... Foi tal o chorrilho de asneiras que me virei para a garota e espingardei:

"Se não te dão educação em casa vê lá seques que ta dê eu".

Erro. Erro. erro. Erro.

Meses depois, também na escola e num dia repleto de pais, ouve-se em altos berros

- Olha a puta da mãe da Quintela! - Era a mãe da miúda, mão na anca e olhar ameaçador.

Não respondi e segui em frente mas imaginei mil cenários de raptos e facadas.

 

O outro episódio, aparentemente mais grave mas menos a ver connosco, passou aqui pelo blogue - um rapaz da turma da Maria que cortou a cara a outro com um X-acto. Fim. Não quero detalhes que me arrepio. O miúdo  continua a frequentar a escola, na mesma turma. A turma da Maria que acabou de me ligar:

- Ó mãe! Só porque eu e a não-sei-quantas dissemos à professora que a fulaninha gravou a discussão que houve na sala, agora a fulaninha está ali com os amigos e o JP (o do X-acto) a dizerem que nos vão fazer isto e aquilo.

 

Eu sei que é ela que tem que se desenrascar, que tem que aprender a não se meter onde não é chamada, que por muito que lhe custe admitir, não vai mudar o mundo sozinha (dói-me tanto dizer-lhe isto). Mas faço o quê, com a minha galinhice e com este medo que lhe dêem uma tareia?

 

Muitos destes miúdos problemáticos não querem andar na escola, não sabem estar na escola, perturbam a escola. Mas o sistema obriga-os a estar na escola. E escola esforça-se por motivá-los (eu sei que se esforça, é uma escola absolutamente extraordinária em termos de recursos humanos). Não me preocupa por aí além que uns miúdos tenha medo de outros (sempre assim foi). Preocupa-me que a minha filha tenha medo de estar dentro da escola. E preocupa-me muito que os professores tenha medo dos alunos e dos pais dos alunos.

 

No meu tempo, se um  miúdo faltasse ao respeito aos professores ou aos colegas, havia coisas chamadas falta a vermelho, processo disciplinar ou duas bofetadas na tromba. E se não dava para a escola, ía acartar tijolos para as obras.

Agora há paninhos quentes e adultos improváveis.


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31 comentários:
De Márcia Carvalho a 4 de Novembro de 2009 às 09:54
"adultos improvavéis"... disseste tudo! (muitos deles têm de estar na escola para os pais poderem receber o rendimento de reinserção social)!!


De Sofia a 4 de Novembro de 2009 às 09:57
Concordo plenamente consigo. A minha filha ainda tem 4 anos. Mas eu levei muitas reguadas na escola primária e estou inteira e quando, ainda hoje, encontro a minha prof, vou sempre cumprimentá-la com mto carinho. Claro q não concordo em os prof. darem sovas aos miúdos, mas não lhes poderem fazer nada é demais. Não quer estudar, é ir para as obras ou lavar escadas.


De Mariana Páscoa a 4 de Novembro de 2009 às 10:32
É de facto preocupante e mais preocupante é o facto de poucas pessoas estarem verdadeiramente preocupadas com este assunto. Quando entrei para a escola preparatória também havia de tudo um pouco e com 9 anos aprendi a sobreviver numa turam cheia de alunos repetentes muitos dos quais já tinham 15 e 16 anos. Mas havia respeito pela sala de aula, pelos professores e pela instituição escola. Agora nem isso parece haver... Que pais são estes e que futuro estão a oferecer aos filhos?! Conseguiremos nós fazer sobreviver os nossos valores nos nossos filhos ou já estamos a remar contra o sistema?


De méri a 4 de Novembro de 2009 às 10:47
Ui!!!
Os adultos improváveis...
devia haver um programa que cruzasse esses adultos com aqueles miúdos...e depois não sei bem o que se fazer com o resultado: partir para uma raiz quadrada ou para um raio que os parta?


De Zuza a 4 de Novembro de 2009 às 10:52
Ai Rita!

tal e qual. 1º ciclo.

e apesar da escolha consciente em relação à escola, saber que se falhar não há alternativas. nem tudo é bom na ruralidade ;))


De ana martins a 4 de Novembro de 2009 às 11:13
Olá Rita!
Concordo plenamente!
O meu filho anda numa escola primária, também com má fama, mas para mim tb foi a melhor opção, pois fica em frente da casa dos meus pais...tb lá se passam situações muito más, com a agravante de ter bastantes crianças ciganas, completamente desprovidas de educação e os tais adultos improváveis, tb eles ciganos e desprovidos de tudo o resto, cujos filhos só frequentam a escola porque são obrigados a tal, para continuarem a receber subsidios ...uma vergonha!
A entrada na escola é às 8.15, mas na turma do meu filho há uma aluna cigana que entra ás 11.00 quando adormece, e isto porquê?
Porque a auxiliar que está de serviço lhe abre o portão fora de horas, sob pena de mandar a muida para trás e a seguir vir a familia toda a dizer que faz e acontece, ou dar-lhe uma sova como já aconteceu.
E ninguem toma uma posição definitiva, é o " se não os consegues vencer, junta-te a eles", mas eu não vou nessas conversas, se eu mandásse (já parece o programa da sic) todas estas situações eram reportadas à segurança social, as faltas à escola eram mesmo marcadas e os meninos chumbavam mesmo por faltas, e isso teria reprecurssões nos RSI e afins...desculpem o desabafo e não me tomem por racista, mas a paciência tem limites... não me falem em integração, porque eles não se esforçam minimamente para tal, querem ter regalias para tudo e cumprir as regras mais elementares da vida em sociedade, tás quieto!
e para o ano tenho a uma no 1º ciclo e outro no 2º ciclo, nem quero pensar !


De papu a 4 de Novembro de 2009 às 11:15
pois é... esses problemas já têm barbas... a mim também me arrepia pensar que os professores e os directores das escolas têm medo de alguns alunos e de alguns pais... mas o que me faz ainda mais confusão é essa atmosfera de "bullying" (perdão pelo estrangeirismo, mas não me vem outro nome) não ser combatida com mais eficácia. Com determinação e firmeza.

Aqui tb se passa o mesmo cenário mas quer-me parecer q há outra determinação. Por ex o bullying é combatido desde a escola primária com acções que envolvem o council (a câmara). Há uma tolerância zero, o q quer dizer que qualquer comportamrnto, mesmo apenas a ofensa verbal, não fica sem consequencias. E depois essa coisa dos queixinhas... aqui esse nome não existe pq é o sistema que encoraja os miúdos a denunciarem os bullies. If you see something say something é o lema da campanha.

Eu parece-me que isto é tb um problema comunitário. Há comportamentos q não se podem tolerar e as pessoas têm de se sentir seguras na comunidade onde vivem. Tem de haver estruturas onde as pessoas se possam queixar e que actuem, sem medos.

Eu acho q nós temos um grande complexo em cima com essa treta dos queixinhas. Ainda me lembro de sentir o mesmo. Pq os queixinhas dp são queles miúdos de quem ninguém gosta e que ficam sem amigos, não é? Mas entao, é bom é silenciar e ser cúmplice (pelo silèncio) de comprtamentos abusivos? entao nao andamos sempre a apregoar q as crianças se devem queixar dos adultos se estes os molestarem? e pq raio é q entre eles deve ser diferente?

a liçao que lhes damos é esta: às vítimas, que o melhor é ficarem caladinhas pq nao há nada a fazer, sempre foi assim e nao vai mudar, aoa agressores, q podem agredir à vontade pq ficam impunes. Toda a gente tem medo deles.

Sim, isto é uma coisa comunitária, cultural, e tem de ser combatida. Com respostas e com "barulho". Nunca com silêncio. Na minha opinião.

Beijos


De Célia a 4 de Novembro de 2009 às 11:22
Bem, a minha filha ainda tem três anos, mas já me dói quando algum miúdo lhe dá uma sapatada, agora se soubesse que anda numa turma com miúdo que corta outros com x-acto não sei não. Ia ser muito um aperto de coração. Concordo que eles tenham que se dar com todo o tipo de pessoas, e que têm de criar defesas mas agora o perigo é real. E quando eles batem nos professores que é suposto ser uma figura de respeito o que não farão os nossos filhos? Vejo pelo infantário da minha filha os miúdos que são muito agressivos, vêm de familias muito complicadas, aliás o exemplo que deste dessa miúda, se a mãe não tem educação como é que vai dar à filha. Mas infelizmente não se vê só isso nas classes mais baixas, existe gente com muito dinheiro com estudos superiores e tal que são uns grandessissimos mal-educados. Mas tudo vai dos exemplos que se tem em casa, quando se vê na tv mães e pais que depois dos prof. chamarem a atenção dos meninos porque eles o insultaram ou bateram ou algo do género, ainda vão lá para dar porrada no prof. em vez de darem um tabefe bem dado ao miúdo o que é que se espera? Temos que andar muito atentas mas é tudo uma questão no sorte no final....
Beijinhos


De mother_24 a 4 de Novembro de 2009 às 11:29
Agora é que falas-te bem! As escolas hoje em dia estão um perigo, morro de medo quando o meu filho chega a casa e me diz que o "tal" lhe bateu porque sim!

Como é possivel deixarem as coisas chegarem onde chegaram, os pais (nem todos) chegaram ao ponto de "ralhar" nos professores qd eles tentam impor disciplina em vez de "ralhar" nos filhos! é inimaginável!

não há respeito pela escola, pelos professores, pelos alunos, pais que entram numa escola com porteiro desculpando-se que pretendem ir falar com o professor tal e afinal entrou para ir dar umas plamadas a um miudo que bateu no filho é para mim UM CRIME!

enfim... haveria tanto por dizer!

jocas


De sofia a 4 de Novembro de 2009 às 11:35
De tudo o que me contas, acho que o pior é a parva da mãe da outra miúda.
O que resultava comigo (andei sempre em escolas de bairros sociais, uma delas em Chelas) era contar a história do tio que tinha na prisão porque tinha esfaqueado um tipo (mentirinha, claro). Esta peta garantiu-me o respeito (vá, o medo) dos restantes. Começava logo ali o meu ano lectivo.
De resto, manter um low-profile, evitar brigas que não as nossas. "a gentlemen will walk but never run".
Bjinhos


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